Uma historinha ‘independente’

são historinhas singelas assim que sempre me vêm à mente quando me lembram de um dia chamado da ‘independência’

Entre Guarulhos, onde morava, e o metrô Tietê, caminho para São Paulo, onde trabalhava, estudava, vivia, há entre o Tietê e o Carandiru uma favela. Paisagem cotidiana, existencialmente eterna, nunca me chamava a atenção. Resolveram construir um shopping center no enorme terreno abandonado ou simplesmente desocupado na mesma região e durante algum tempo observei curioso o absoluto contraste dos dois mundos que se encaravam dos lados opostos da mesma avenida.

Não lembro agora se a grande missão de erradicação daquela favela iniciou-se durante mesmo a construção do shopping ou somente depois de sua inauguração; sei que certo dia a favela sumiu e todos os seus habitantes desapareceram, dando lugar a mais um enorme campo vazio. Ora, mesmo jovem, besta e ingênuo (mais do que sou hoje), tinha consciência de que a pobreza não fora resolvida nem a riqueza do pib distribuída por toda a população nem os favelados remanejados para conjuntos residenciais de luxo. Portanto, o grande ‘sumiço’ devia-se somente ao enorme desconforto do pessoal do outro lado da avenida inconformada em ter que viver observando tão perto o seu reflexo mais pobre.

A pobreza, no entanto, tem horror ao vácuo. Ela toma o espaço vazio, fagocita-o e se acomoda, pois sabe-se muito bem que a miséria é potente e presente, mesmo que seus miseráveis estejam invisíveis. Os barracos voltaram, retomaram seus lugares, refizeram sua vila de papelão, zinco e lama. Foram expulsos novamente e de novo retornaram, dando uma feição horripilante (mesmo que lenta, diária e agoniante) a essa luta fratricida.

Até que o prefeito Pita, o querido apadrinhado do Maluf,  inaugurou ali uma unidade do seu conjunto habitacional, tomando de vez o espaço e garantindo assim uma fachada bonitinha. Eu sempre ouvi horrores sobre o estado e a qualidade desses conjuntos e imagino que a maior parte dos boatos fosse verdade. O que sei é que da minha confortável posição de passageiro de ônibus passante, descomprometido expectador passivo e covarde, tudo o que eu podia observar era a fileira dos pequenos prédios de tijolinhos vermelhos e sua leva de novos habitantes que, obviamente, nada tinha a ver com os antigos favelados.

Saí de Guarulhos, morei em diversas outras zonas, voltei depois de muitos anos, meu caminho para São Paulo mudou, a estação de metrô mais próxima agora é o Tucuruvi, as linhas de ônibus se modificaram. Demorei a fazer o velho trajeto para o Tietê e, quando o fiz, retomei também o meu papel de expectador para ver como estava a avenida.

E estão todos lá. O shopping com sua mesma idêntica fachada que parece nunca mudou, o conjunto com seus tijolinhos vermelhos agora obscurecidos pela decadência e pelo tempo, mas firmes e presentes. E a favela, com seus barracos envolvendo o conjunto, plenamente visíveis nos desvãos dos predinhos e no arredor do terreno, como a dizer: ‘Aqui estou. E aí?’

– são historinhas singelas assim que sempre me vêm à mente quando me lembram de um dia chamado da ‘independência’

 

Explore posts in the same categories: Desconcertos

Tags:

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s