Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides.

Elas são os apêndices românticos do personagem principal e servem explicitamente para garantir e manter a heterossexualidade do dominante, como fazem Blake Lively (como Carol Ferris, no ‘Lanterna Verde’), Hayley Atwell (Peggy Carter, ‘Capitão América – O Primeiro Vingador’), Gwyneth Paltrow (Pepper Potts, ‘Homem de Ferro’), Natalie Portman (Jane Foster, em ‘Thor’). Sua função é mostrar-se como bonito objeto de desejo sexualmente ativo, dedicar-se à admiração (mesmo que constrangida, às vezes) e o culto ao herói, manter o herói e o público atiçados, revelar um lado mais humano ou simples do companheiro, e colocar-se, de quando em quando, em perigo iminente de morte, prestes a ser salva.

A rigor, nunca estiveram de fora. Praticamente, todo o cinema de ação e aventura de Hollywood se guia, desde sua fundação, pela presença da mulher como ser frágil e que precisa ser protegido. Quando fortes, determinadas e independentes, são tratadas e reconhecidas como seres estranhos e bizarros, coisas do demo, provavelmente, que precisam ser ‘reconduzidas’ ao seu estado natural de ‘mulheres’ ou ‘rebaixadas’ para vilãs (é a própria gênese e característica da espécie ‘femme fatale’, as belas e perigosas mulheres que, entre as décadas de 30 e 50 usavam sua malícia e sua força sexual para atacar o centro do poder masculino, seduzi-lo e convencê-lo a fazer o que ela quisesse, para depois massacrar seu coração, roubar todo seu dinheiro e, quem sabe, matá-lo) (e, em geral, elas morriam no final do filme).

No mundo dos quadrinhos de super-heróis não é diferente. A criação do Super Homem no final da década de 30 presupunha seguir a lógica e o sentimento da época (na verdade, nem mesmo se colocava isso em questão) e Lois Lane era a própria lógica em ação: bonita e atrevida, em sua ânsia de se valorizar como jornalista (portanto, passando por cima do status quo masculino) acabava por atrapalhar o trabalho do super e se tornava o alvo do vilão; ser salva completava sua missão na história. Nunca, em momento algum, nem nos quadrinhos ou nos filmes, esse sistema será quebrado, mesmo que seja temporariamente ameaçado, por conta do suspense do enredo.

Dirigido para uma massa selvagem de adolescentes masculinos norte-americanos sedentos de fantasia, esse mercado de hqs não abria espaço para superheroínas. Quando surgiram, eram somente reflexos do heroi-mor (portanto, em posição subalterna) como Batgirl, Supergirl, ou então meros coadjuvantes. Em outros tempos, Lois Lane no auge de sua popularidade (e na rabeira do sucesso do  Azulão, claro) chegou a ter sua própria revista em quadrinhos, com seu nome em maiúsculas (e em mínúsculas ‘a namorada do superhomem!’) onde seu maior objetivo era descobrir a verdadeira identidade do Super. E casar com ele.

A lenta e sofrida ascensão sócio-econômica das mulheres cobra um pouco de atenção, e o imenso acúmulo de histórias e experiências narrativas ao longo desses mais de oitenta anos de super-revistas possibilita a inserção cada vez maior de personagens femininas fortes que se descolam de seus pares machos. O mercado, obviamente, continuava a ser dirigido por homens e consumido por homens adolescentes, sem a menor idéia de como se dirigir a um público feminino ou sequer como criar esse tal público. Uma experiência interessante foi um período da revista da Mulher Maravilha em que ela abandonou sua fantasia vermelhoazulada de pseudoamazona grega e deixou de caçar superbandidos para tentar uma vida de humana comum na cidade grande. Ela não deixou os superpoderes, mas usava-os para ultrapassar os problemas do cotidiano e discutir questões do dia a dia das mulheres contemporâneas. Interessante. Foi um fracasso, essa tentativa de ‘diálogo’ durou poucos números e logo ela voltou a usar os shorts curtos estrelados e o corpete vermelho.

Para Mulher Maravilha, é necessária uma discussão mais ampla do que cabe nesse texto. No entanto, é preciso deixar demarcado que, apesar da importância adquirida pela personagem até hoje, pela sua força e inserção no masculino universo superheróico e pela visibilidade conquistada como ‘representante’ feminina (ou até mesmo feminista), ela continua sendo regida pelas mesmas regras e lógica anteriores. Não se pode perder isso de vista sob o perigo de pensar que houve, em algum momento, alguma ruptura ou até mesmo quebra do pensamento hegemônico. Não, não houve. Dito isso, é fácil de perceber que há uma diferença abismal entre o tratamento adotado hoje em dia em relação a personagens femininos do que há décadas atrás. Nenhuma revolução, mas avanços.

Enquanto isso,

em Hollywood existe uma espécie de consenso (ou uma concepçao pré estabelecida) de que mulheres não funcionam para liderar filmes de ação. Seriam fracassos garantidos. As mulheres não se identificariam e os homens não assistiriam. Elas podem ser muito importantes, ou até mesmo fundamentais para a história, mas nunca como personagens principais. Angelina Jolie é tratada como exceção, como realmente é. E ela pode socar os produtores com o dinheiro arrecadado …  essa concepção não muda. Para se ter uma idéia em números: até janeiro deste ano, 2011, Angelina foi responsável pela arrecadação de 479 milhões de dólares por ‘Sr. e Sra. Smith’, 340 milhões por ‘O Procurado’, quase trezentos milhões com ‘Salt’, 280 milhões com ‘Tom Raider’, 160 milhões com ‘O Turista’. Digamos que números nada desprezíveis.

Mas por que Angelina Jolie é uma exceção tão luxuosa? Por que as mulheres no comando, em geral, são ‘garantia de fracasso’? Quantas outras atrizes são capazes de chegar perto do que Angelina faz?

A resposta chega a ser singela de tão simples. A acomodação e a covardia tipicamente hollywoodianas. Impede-se novos filmes com apostas altas em mulheres como principais, portanto há menos visibilidade; e quando produzem é de modo tão covarde e recalcado que o resultado, no mais das vezes, é desastroso. O desconforto em ferir quaisquer átomos de sensibilidade masculina acaba sendo, por mais irônico que pareça, castrador.

Dessa forma, a covardia e o desconforto hollywoodianos podem produzir um filme bem aceito como ‘Tomb Raider’ e, mais tarde, uma merda fumegante como ‘Elektra’ (que descaracteriza e aniquila um dos personagens mais fascinantes e complexos já criados na cultura pop). A covardia e o desconforto masculino também são responsáveis por uma parte do fracasso em retomar o personagem da Mulher Maravilha, tanto na televisão quanto no cinema. O episódio piloto do seriado cancelado (facilmente baixável em qualquer lojinha torrent a sua disposição) é mais do que nunca a prova cabal da completa incapacidade de se compreender uma personagem com tal estatura ou, ao menos, de se respeitar (ou prestar atenção em) décadas de construção e narrativas já prontas e testadas anos a fio. O péssimo roteiro, a produção pobre, o argumento fraco, a descaracterização do personagem, os atores inadequados, também ajudam, claro, mas a má vontade já é de antes e possibilita todo o resto.

Com a nova onda de superheróis, as mulheres-cabides, as personagens-apêndices, as atrizes coadjuvantes preocupadas em se manterem bonitas e responsáveis em fazer brilhar ainda mais o poder macho, estão igualmente em voga. Elas não são frágeis nem submissas (a maioria), não esperam para serem salvas ou resgatadas, tomam posição ativa de comando e brigam tanto quanto. Mas são sempre secundárias.

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6 Comentários em “Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides.”

  1. a Says:

    a

    Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides. | DESCONCERTOS

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  2. daterateme.com

    Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides. | DESCONCERTOS

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  3. xo cigs reviews

    Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides. | DESCONCERTOS

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  4. […] Já comentei sobre o fato de haver um preconceito sobre mulheres protagonistas e o quanto é difícil e raro alguma conseguir furar a preponderância masculina. Em geral, a elas é destinado o papel das heroínas-cabide que servem fundamentalmente para embelezar o filme e servir de escada para uma maior masculinidade do personagem principal. Quando conquistam um pequeno espaço, a maioria termina em filmes porcamente realizados, o que só serve para alimentar o preconceito (para um monte de outros detalhes eletrizantes sobre as heroínas-cabide no cinema e nas histórias em quadrinhos, é só ler o texto completo: “Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides“). […]

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  5. E há o fato de que falta quem escreva boas histórias sobre mulheres heróicas. O universo das HQs anda um tanto fraco, com exceção de Halo Jones e Promethea.

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    • Claudinei Vieira Says:

      é verdade, a crise de roteiristas – criadores – pensadores é tão problemática nos quadrinhos quanto no cinema, ainda mais com essa necessidade absurda de suprir uma quantidade enorme de histórias para as revistas regulares. Agora, citar Alan Moore também é covardia, não? gigante entre anões.
      sejam muito bem vindo, Makoto. grande abraço.

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