FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov. Bela edição da Aleph

Hari Seldon

Daqui a muitos milhões de anos, a humanidade está espalhada por milhares de sistemas solares e organizada por um centralizado Império Galáctico cuja capital é Trantor. É um império pacífico e bem cuidado. A paz e prosperidade garantidas por tanto tempo está, no entanto, prestes a desabar.

Um cientista, um matemático chamado Hari Seldon previu a queda do Império usando uma ciência nova que ele próprio havia criado, a PsicoHistória: a ciência utilizava o rigor matemático na previsão dos movimentos da humanidade: o ser humano em si continuava a ser instável e imprevísivel, mas a enorme massa populacional da época cria uma inércia imensa que poderia ser quantificada e traduzida por números. E, por mais tristes que pudessem ser, os cálculos levavam a única conclusão: além da queda, haveria um novo Império, mais forte e equilibrado do que nunca, mas entre estes dois extremos, dez milhões de anos de sofrimentos, guerras, morte e destruição. Assim, dizia a psicohistória.

Tratado como traidor pelo Império e mal compreendido pelos seus próprios companheiros, Seldon concebeu o seguinte plano: não poderia deter a queda, mas poderia diminuir o tempo do interregno. Cuidadosamente, matematicamente, criou duas instituições científicas, com alguns poucos milhares de integrantes e seus familiares, e as colocou em pontos extremos do universo, em localizações estrategicamente escolhidas e determinantes para que os eventos históricos, políticos e econômicos as levassem a se tornar o núcleo do futuro império e diminuir a duração do caos de dez milhõer para um milhão de anos, e aliviar um pouco o sofrimento da humanidade.

A cada capítulo dessa saga somos apresentados a um problema central, uma crise (prevista e planejada) política, social, econômica, que leva a uma encruzilhada a qual cada geração de fundacionista precisa resolver e ultrapassar para que o grande plano inicial possa ser cumprido.

Este é o enredo principal da série de contos FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov, publicados em revistas na década de 50 nos Estados Unidos, a época de ouro da Ficção Científica. Mais tarde, os contos foram publicados em livros, formando uma trilogia (Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação); no Brasil, durante décadas, a única publicação disponível foi da editora Hemus, em um volume único, pessimamente editado.

Asimov faz parte da trinca dourada dos maiores autores de ficção científicas norte-americana. Os outros dois são Ray Bradbury e Arthur C. Clarke, cada um com seus estilos narrativos, preocupações e qualidades específicas, cada um com pelo menos dois ou três clássicos, por baixo. Sempre tive uma “queda” maior por Asimov. Bradbury talvez seja melhor escritor e Clarke possui umas sacadas verdadeiramente geniais, mas Asimov é de longe o mais simpático e divertido. Sua escrita leve, agitada e lúdica fez a minha alegria por muitos anos. Ainda faz. Era um escritor extraordinário, não só em sua especificidade, mas também em quantidade. Químico por formação acadêmica, escreveu por volta de quatrocentas obras, sendo que só metade disso é de ficção. Ele escreveu de tudo e sobre tudo! De Física Nuclear popular a Shakespeare; de divulgação científica à Bíblia; de Nostradamus a Einstein. Escrevia de puro prazer, por necessidade de escrita e esta alegria perpasIsaac Asimovsa por todos os seus livros. Além da série Fundação, há também a célebre série dos Robôs Positrônicos (ele, inclusive, é o inventor da palavra Robótica).

Asimov foi maltratado pelo cinema. Ele não teve a sorte de Arthur C. Clarke, que teve um conto filmado por Stanley Kubrick e resultou no 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Ou de Philip K. Dick, outro mestre no gênero, cujo romance “Do Androids dream of eletric sheep” foi transformado por Ridley Scott no cult “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (Dick, aliás, é um querido em Hollywood, com muitas obras adaptadas; de boa qualidade, em geral). Baseado em Asimov, há um filme muito bom, chamado Viagem Fantástica, de 1966, onde um grupo de cientistas é miniaturizado e faz uma viagem por dentro do corpo de um famoso cientista para tentar remover um tumor que o está matando. Teve uma refilmagem interessante e original, em tom de comédia. Houve uma versão (terrível) de um conto clássico, “O Homem Bicentenário”, onde um robô tem o sonho de se tornar humano. Só posso dizer que o filme estraga, acaba, destrói uma verdadeira peça literária de alta qualidade. Em 2004 teve a frustrante versão de outra obra clássica, também de robôs, o seminal “Eu, Robot”, produzido e estrelado por Will Smith. Outra obra destruída.

De vez em quando, cogita-se em Hollywood de se produzir ‘Fundação’, o que provoca um misto profundo de esperança e medo. Em Fundação não há guerras interplanetárias (as batalhas espaciais, quando ocorrem, são somente citadas), não há monstros gosmentos nem Ets, o universo é habitado somente por seres humanos (uma espécie de “invenção” do Asimov, em um universo literário e cinematográfico onde a constante é a presença e ou invasão de monstros galácticos). Isto é, tem história, enredo. Será que isso é suficiente para Hollywood? Por certo, as dimensões do enredo, seus fantásticos cenários e ambientações, e as várias mudanças de foco e objetivos, devem assustar os produtores com seus prováveis altos custos. Algum dia, no entanto, isso vai se concretizar, alguém mais afoito vai filmar. O resultado disso nem mesmo a psicohistória de Hari Seldon pode prever.

ALEPH

No Brasil, o fato da Hemus publicar os três livros de Fundação em um único volume fazia a felicidade dos fãs de ficção científica. Infelizmente, esse era o único ponto positivo, de resto essa edição era um desastre absoluto. A tradução era um absurdo, a diagramação horrível, a fonte péssima; nunca, em momento algum, houve um revisor para acertar os erros de tradução ou de português. Outras obras de Asimov, editadas igualmente pela Hemus, foram muito melhor cuidadas e respeitadas; o que fizeram com Fundação, portanto, chega a ser incompreensível.

Finalmente, em 2010 a editora Aleph, dentro de sua excepcional linha editorial de ficção científica, resgata a trilogia, e nos proporciona uma publicação à altura da importância da obra. Belíssima edição, com lindo projeto gráfico, tradução nova e esmerada de Fábio Fernandes (viva!). Mantendo a divisão dos três livros (uma pena, mas inevitável), o único grande senão que posso colocar é o preço, ainda um pouco salgado para os meus padrões. A obra-prima de Isaac Asimov, no entanto, bem vale o esforço.


 

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2 Comentários em “FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov. Bela edição da Aleph”

  1. Gustavo Aroeira Says:

    caa.. Pelo que li aqui, vc nunca leu fundação..

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