O novo ‘Planeta dos Macacos’ é, ao mesmo tempo, um Déjà vu e um coito interrompido.

Os macacos já foram, um dia, Harry Potter.

Eu desejava ter gostado muito do ‘Planeta dos Macacos – A Origem’. Estava disposto a isso, até mesmo a relevar eventuais (talvez prováveis) problemas na produção ou, quem sabe, confrontar o sentimento nostálgico de fã da antiga série. A sensação agridoce no final me deixou um pouco confuso, entre curtir os pontos bons do longa (que são vários) e aceitar (ou engolir) os pontos ruins (que são realmente muito ruins! e em muito maior número) e fazer disso tudo uma mistura que tenha algo de positivo. Difícil de se chegar a uma conclusão.

Quando percebi que, na verdade, existem 2! filmes ocupando o mesmo espaço, que correm em paralelo, quase que independentes um do outro, e com resultados os mais diversos possíveis, tudo ficou esclarecido.

De um lado, a construção da revolta, um bom filme de ação e suspense, com roteiro bem trabalhado, personagens tensionados e bem constituídos, boa condução do diretor, e efeitos especiais espetaculares (que, mesmo quando não são verossímeis são tão bem feitos que os aceitamos). A história (calcada, como seria inevitável, em ‘Spartacus’) é narrada com vagar e detalhes, uma ótima novidade nestes tempos vídeoclípicos e transformers, respeitando o tempo de formação do personagem principal, César, um macaco geneticamente modificado que possui um desenvolvimento acelerado na inteligência, inclusive em termos humanos. De sua ‘infância’ e ‘adolescência’ complicadas e isoladas à conscientização dos maus tratos aos animais de sua espécie, o sofrimento e as injustiças, a formação da revolta subterrânea, até o clímax da explosão de violência, tudo impecável, emocionante e coerente.

Do outro lado, … o resto. O cientista preocupado em encontrar uma cura para o Mal de Alzheimer (que acomete seu pai), quebra alguns princípios de sua ética profissional, cria às escondidas o macaquinho César, e nunca compreende as possíveis consequências de seus experimentos. O chefe malvado que só pensa em lucros. A veterinária gostosa que está lá para servir como interesse amoroso para o cientista (e para ficar insistindo que algumas coisas não devem ser feitas, que a natureza deve seguir seu caminho, que a ciência deve ser contida). O pai simpático e com doença terminal, feito para nos fazer chorar (e não consegue). O animal bonzinho e bonitinho que, no fundo, é uma verdadeira ameaça à humanidade.

O festival de clichês é tão abundante neste filme quanto no ‘outro’. Diferente do ‘filme da revolta’, no entanto, nada aqui funciona. O roteiro é ridículo e raso, em especial no primeiro terço do filme onde os conflitos e a forçação de barra entre as cenas de ‘alegria’ e ‘paz’ em contraste com a dor e a perda são levados em um estilo Disney-de-ser (‘Rei Leão’ e ‘Bambi’ são muito melhores). O elenco é encabeçado pelo sempre-sempre-apático-e-sem-graça James Franco, acompanhado por Freida Pinto (bonita e pouco expressiva, está longe de se provar como boa atriz) e pelos excelentes atores John Lithgow e Brian Cox que emprestam um pouco de dignidade aos seus personagens, mas não podem fazer muita coisa com caracteres tão bidimensionais e uma direção insossa.

Aliás, a direção… Não é possível acreditar que seja o mesmo diretor que consegue criar um clima tenso e repleto de nuances em uma cena aparentemente simples como a de César parado, observando seus companheiros de jaula, e ruminando os próximos passos para a revolta. O mesmo diretor que conduz a bela luta entre humanos e macacos.

Como estes ‘dois’ filmes estão entrelaçados, a alternância entre os bons momentos e os péssimos cria uma tal sensação de tira-e-põe de emoções e expectativas que só pode resultar em um produto final inconsistente e insatisfatório. No final, logo após uma cena empolgante ou um confronto particularmente bem feito, chega James Franco e diz uma frase idiota ou mostra uma expressão vazia. Assim não dá!

O grande mérito de ‘Rise of the Planet of the Apes’ reside, assim, em esquecer (enterrar, cuspir e pisar em cima) a infeliz e terrível versão do ´Planeta dos Macacos’, do Tim Burton, de 2001, e nos remeter (mesmo que de uma boa distância, em tempo e qualidade cinematográfica) à série clássica do final da década de 60.

Mais do que retomar um bom filme e dar-lhe uma montagem mais moderna, o grande sonho dos produtores de Hollywood é recriar o clima de esfuziante euforia e tremendo impacto provocado pelo ‘Planeta dos Macacos’ original, de 1968, e que são sentidos até hoje, mais de quarenta anos depois, mesmo que de forma indireta. Mesmo os mais jovens percebem essa influência e sentem essa presença, ainda que inconscientemente, e ainda que seu horizonte imediato seja o filme do Tim Burton (coitados). Talvez a comparação mais fácil e óbvia seja a do fenômeno Harry Potter e seu alcance conquistado no público mundial, e mesmo assim seria somente uma mera aproximação.

Lançado no contexto da Guerra Fria e de um pessimismo generalizado (ou, pelo menos, forte inquietação) sobre o futuro da humanidade (inclusive se haveria futuro), ao lado de um contraditório entusiasmo pelas conquistas científicas e a ascensão dos vultosos movimentos sociais e políticos e as revoltas juvenis, ‘O Planeta dos Macacos’ pegou em algum nervo realmente sensível da sociedade e recebeu uma resposta planetária. Depressa, extrapolou os limites do cinema e se tornou um marco cultural.

Foram realizados cinco filmes: O original de 68, clássico absoluto e que ainda hoje funciona muito bem. ‘De Volta ao Planeta dos Macacos’, de 1970, uma boa continuação média (lembro que eu não gostava dessa sequência na época; revisto há pouco tempo, fiquei surpreso com a boa qualidade e percebi que a minha anterior má vontade era um pouco de preconceito contra continuações). ‘A Fuga do Planeta dos Macacos’, de 1971, sai um pouco da ótica fatalista dos anteriores, assume um tom farsesco e realiza uma arrasadora crítica à sociedade de consumo. ‘A Conquista do Planeta dos Macacos’, de 72, é outro marco, comparável ao primeiro, mostra como os macacos se armaram, fizeram sua revolução e tomaram o planeta. É a base para essa refilmagem de 2011 e é milhões de vezes melhor. ‘A Batalha do Planeta dos Macacos’, de 1973, é um final melancólico e rídiculo para a série; talvez seja pior do que o filme de Tim Burton…

Os macacos invadiram outras mídias, todas com muito sucesso. Originou um seriado de televisão (fraco, ignorava alguns princípios básicos dos filmes, teve poucos episódios, mas foi exibido e reprisado à exaustão), foi transposto para histórias em quadrinhos (eu tinha vários números dos gibis), vendeu como brinquedo, bonecos, posters, máscaras para o carnaval (eu tive a minha), em uma época em que esse casamento entre marketing e venda de produtos relacionados e o cinema ainda era muito incipiente (George Lucas estabeleceria isso de fato, e com todos os lucros imagináveis, a partir de 1977, com Guerra nas Estrelas). No Brasil, teve um humorístico de televisão no estilo Zorra Total chamado Planeta dos Homens, cujo personagem principal fantasiado exatamente como nos filmes tinha como bordão “O macaco tá certo!”. E não se pode, de forma alguma!, esquecer a versão alternativa definitiva para o cinema: ‘Os Trapalhões no Planalto dos Macacos’.

É isso o que os produtores hollywoodianos tanto anseiam e foi o que procuraram reproduzir em 2001, quando então quebraram a cara. Deixaram esse deslize de lado, reuniram forças e tentaram de novo, o que pode ser admirável pela persistência ou surpreendente pelo desespero. De qualquer forma, parece que desta vez acertaram. A receptividade norte-americana, traduzida em bilheteria, foi muito boa e as expectativas para o mercado mundial são excelentes, o que já garantiu a continuidade para, ao menos, mais dois filmes.

Em 1968, havia a Guerra Fria e o medo do apocalipse nuclear. Em 2011, os macacos lutam pelo politicamente correto e pelos direitos dos animais. Se eles vão conquistar a mesma relevância, só os próximos filmes poderão responder. Neste momento, ‘O Planeta dos Macacos – A Origem’ é irregular demais e com furos além da conta para ser realmente bom.

O pior é saber que James Franco vai aparecer em mais dois filmes.


Anúncios
Explore posts in the same categories: Sem categoria

Tags:

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s