Entrevista com o Vampiro: a gênese dos vampiros-emos

Refilmagem de “Entrevista com o Vampiro” parece estar nas mentes (e nas calculadoras) dos produtores de Hollywood e não só como retomada do filme original de 1994, de Neil Jordan, mas como o início de uma nova série cinematográfica baseada nos vários livros deixados pela autora Anne Rice. Até onde sei, somente boatos, nada de concreto, além da óbvia constatação de que é um material de vasto potencial (cultural e financeiro) e seria um tremendo desperdício deixá-lo inativo.

Faz bastante sentido o desejo. Afinal, com o término da saga (palavrinha na moda, atualmente) Harry Potter e com os próximos (e finais) capítulos da ‘saga’ (…) Crepúsculo, a maior aposta de filmes blockbusters está sendo a série de superheróis: a expectativa e a ambição dos executivos da Marvel é que a história do cinema seja dividida em Antes e Depois do filme dos Vingadores, que reunirá de uma só vez o Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk, Viúva Negra e Nick Fury, enquanto Batman e Homem Aranha correm em paralelo e Superman, por enquanto, é uma completa incógnita. No caso, porém, que o planeta não fique extático, embasbacado diante dos Vingadores ou do Superman ou haja um cansaço generalizado do gênero, a necessidade de uma nova franquia que garanta seus lucros se torna ainda mais premente. “Entrevista com o Vampiro” e a continuação das aventuras do vampiro Lestat podem muito bem ser esta nova via e não entendo porque não estão correndo desesperados para torná-la realidade.

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O primeiro livro de Anne Rice foi lançado em 1979. Em 2005, o mundo vampírico em geral estava em relativa calma quando uma dona de casa mórmom decidiu escrever um livro sobre um ser sobrenatural, lânguido e que brilhava ao sol e resolveu chamar esse ser de vampiro. Criou uma nova onda literária de romances açucarados com toques sobrenaturais para adolescentes femininos, uma outra onda de filmes e seriados com o tema, e ao mesmo tempo um conflito eterno com os antigos adoradores dos velhos vampiros monstruosos, de ‘sangue-nos-olhos’, mezzo galantes mezzo demônios, feitos para aterrorizar os seres humanos e terminarem com uma elegante estaca no coração. Stephanie Meyer sempre deixou claro que não sabia nada sobre vampiros antes de começar a escrever, não lia sobre o assunto nem assistia filmes de terror. Por mais difícil de acreditar que ela estivesse tão distante assim desse universo, basta dar uma lida em algumas páginas de ‘Crepúsculo’ para concordar que é verdade: ela realmente não sabia nada. Talvez saiba um pouquinho agora.

O sucesso do Edward, seu genérico vampiro vegetariano, só deixa ainda mais putos os cultuadores dos velhos vampiros. E também espantados. Não conseguem entender (ainda hoje) como pode impressionar um personagem tão melancólico e indeciso, um tanto depressivo (mesmo que não tenha tendências autodestrutivas) e até inconformado com sua condição de ser-brilhante-ao-sol, chorando de desejo pela sua namorada humana, mas sem coragem de transformá-la (demorou 3 livros e respectivos filmes até se decidir, afinal, sugá-la! Bela Lugosi e Christopher Lee teriam feito o mesmo em cinco minutos). Com a estréia daqui a pouco tempo de ‘Amanhecer’, a última parte da série, os ânimos ficarão ainda mais exaltados: as adolescentes em histeria (pelos vampiros e pelo final) e os ‘velhos’ desgostosos e com desprezo.

Pessoalmente, considero esse desprezo exagerado. Se as meninas adolescentes gritam ensandecidas toda vez que o pseudo-lobisomem fica sem camisa ou se emocionam e se identificam com Bella, uma dúbia mocinha pós-humana, ou suspiram pelo emo Edward, eu só posso dizer: Por que não?! Por que não devem se divertir e se emocionar dentro da sala de cinema e sairem correndo twittar? Qual é o real problema disso? Se os livros são mal escritos ou, no mínimo, rasos, se os filmes são ruins, com roteiros péssimos, direções sofríveis e caracterizações risíveis (o que acredito sejam mesmo!), pelo menos conseguiram um objetivo (enorme e definitivo objetivo) que é o de atingir seu público-alvo: as adolescentes. Deve-se compreender de uma vez por todas que ‘Crepúsculo’ não é uma obra de terror, nunca pretendeu ser. É um romance de amor, e pronto. Com elementos de sobrenatural e resquícios de personagens de histórias de terror, recolhidos e re/mal/trabalhados por uma mente mórmom, solenemente ignorante dos cânones do gênero. A impressionante resssonância nos cinemas e nas livrarias foi por ter conquistado a simpatia de uma boa parte de público que geralmente é menosprezada e que, desta vez, se sentiu afinal contemplada. A compreensão disso não torna os livros nem os filmes melhores, sem dúvida, mas deveria servir pelo menos para tirar o ranço esnobe dos mais ‘velhos’.

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De certa forma, era inevitável que Edward, o vampiro-emo, acontecesse. Em realidade, ele foi sendo construído e plasmado através de vários antecessores, alguns inclusive de nobríssima estirpe. É o caso de Angel, o ‘vampiro com alma’, surgido do seriado da Buffy e que fez tanto sucesso que estrelou sua própria série. Apesar de ser uma criatura demoníaca do-bem que caçava as demais criaturas do-mal, sua maior motivação era somente passar toda sua vida (ou não-vida) se lamentando por não poder consumar seu amor por Buffy (pois por conta de uma maldição ele seria transformado em uma criatura do-mal). E dá-lhe suspiros e gemidos e choros.

‘Drácula, de Bram Stoker’, dirigido por Coppola, já não era exatamente um filme de terror, apesar de seguir bem de perto a obra original e contar com uma direção de arte primorosa que se utilizou de forma esplêndida das imagens e sinais apropriados e relacionados com o medo e o horror dos vampiros clássicos. A prioridade de Coppola, no entanto, foi a história de amor entre o Conde Drácula (Gary Oldman, espetacular) e Mina Murray (Winona Ryder, perfeita). O Conde vive tristonho e acabado pelos corredores do seu castelo, lamentando a morte de sua esposa (por séculos!) quando descobre uma reencarnação de sua amada e vai atrás dela. O filme é um clássico em todos os sentidos, da direção ao roteiro, dos atores à música, mas confesse que esse argumento é digno do ‘Crepúsculo’!

Porém, a verdadeira culpada de tudo é Anne Rice. Foi ela quem inventou o vampiro-emo.

Lembro de não ter gostado da ‘Entrevista com o Vampiro’ quando o li pela primeira vez. Achei fraco. Mais: considerei-o tolo, bobo. Sem graça. Apreciei muito mais o filme, mesmo que longe da paixão pelo do Coppola e apesar de algumas fraquezas sérias já evidentes na época (a interpretação do Antonio Banderas, por exemplo, chega a ser muito engraçada de tão ruim). Hoje em dia, meu entusiasmo diminuiu consideravelmente, mas ainda assisto numa boa. Quando li ‘Crepúsculo’, de Stephanie Meyer (me recuso a emitir opinião sobre uma obra literária ou cinematográfica que eu não tenha lido ou assistido) pensei de imediato: ‘Eu estava errado, ‘Entrevista com o Vampiro’ é um clássico da literatura universal’.

Nestes últimos dias fiquei tentado e curioso de saber como seria uma releitura de Anne Rice. Tinha certeza de que seria uma experiência mais interessante do que antes (principalmente depois da Stephenie Meyer), e também porque queria comprovar minha percepção de que o livro foi, afinal, a verdadeira fonte e formatação dos atuais vampiros-emos. Protelei durante algum tempo até que resolvi e peguei o livro de novo.

O resultado foi agradável, melhor do que esperava. Anne Rice realmente escreve muito, a ambientação é bem realizada, os personagens são marcantes, as cenas fortes (uma em especial me deixou impressionado: a transformação da menina de cinco anos em vampira; o terror e o incômodo da cena batem de longe a adaptação cinematográfica). Apesar da história ser ligeira e passar rápido, não haver descrições extensas, menos ainda barrocas ou góticas (como fazem Clive Baker ou Stephen King, por exemplo), a sensação final geral não é de terror ou de medo, mas de desconforto. Sentimento contínuo e persistente que percorre o livro. Entende-se porque Anne Rice fez sucesso.

E ali está. O ‘entrevistado’ se chama Louis, que narra sua história para um jovem pesquisador da vida noturna de Nova Orleans. Louis era um antigo latifundiário da região quando, logo após a morte trágica de seu irmão, foi ‘escolhido’ e transformado por um vampiro satírico e vulgar chamado Lestat. Dividido inicialmente pela dúvida se teve ou não responsabilidade na morte do irmão e, mais tarde, acometido pelo desespero da solidão, percorre o mundo na tentativa de entender sua existência e se há um sentido (divino ou diabólico) para sua condição de morto-vivo. Lestat não lhe proporciona respostas, nem sequer lhe interessa as perguntas, só uma boa vida regalada a prazeres mundanos resultante do dinheiro de Louis. Para Lestat, a resposta e o prazer maior para os vampiros se resume a : matar seres humanos e sugar seu sangue. Para Louis isso não chega nem perto de ser suficiente. O livro é, então, atravessado pelas especulações, receios e anseios de um vampiro que insiste em tentar manter uma espécie de ‘humanidade’ própria. Ou uma ilusão da mesma.

Anne Rice formatou e construiu a figura do vampiro moderno, dando-lhe um novo vigor, atualidade e densidade. Limpou o pó das tradições acumuladas durante tantas décadas, inovou em várias características, sem nunca quebrar o arquétipo estabelecido. Propôs questôes atualizadas e fincou-o no mundo contemporâneo, utilizando alegremente clichês antigos e inventando novos. Teve, assim, a tranquilidade de, em livros posteriores, ousar ainda mais.

E, sinal dos tempos, o personagem que ficou mais presente e fez bem mais sucesso foi o cínico e ativo Lestat que voltou diversas vezes.

Já o melancólico, triste e até um tanto covarde, Louis, desapareceu. Pode-se dizer que, de uma certa forma, ele voltou agora. Transfigurado em… Edward. Brilhando à luz do sol.

E não comparemos Robert Pattinson com Brad Pitt porque, aí sim, seria pura covardia.

 

 

 

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4 Comentários em “Entrevista com o Vampiro: a gênese dos vampiros-emos”

  1. André Machado Says:

    Grande Claudinei! É sempre muito bom ver suas análises de cinema. Você tira “leite de pedra”. Estava fazendo falta.

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  2. Fernanda S. Says:

    Maravilhosa análise, Claudes! Fui arrebatada por “Entrevista com o vampiro” na adolescência. Compartilho de muitas das ideias e gostos que colocou aqui. Mas eu acho que o lixo que Crepúsculo exala é típico de uma decadência que vivemos (ih, entrei agora no último filme do Woody Allen).

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    • Claudinei Vieira Says:

      Pois é, Fernanda, concordo, é triste constatar que o ‘espírito de nossa época’ (há uma palavra alemã robusta e intelectual para isso, não?) se encontre em uma obra tão rasa, tão mal escrita. Como disse no texto, não gostei do ‘Entrevista’ na época, mas quando comparo com Crepúsculo…

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