A fumaça pura de Guilhermo Cabrera Infante

charuto1

Fumaça Pura” é a elegia e elogio ao ato de fumar charuto. Do fumar em geral, do prazer em tirar prazer do tabaco em todas as suas variantes, do cigarro, do cachimbo, do rapé. Mas principalmente do charuto, preferência pessoal do autor. Ato elevado aos princípios de uma verdadeira arte, de sua constituição, de sua manufatura, de sua comercialização e que vai além da mecanicidade de acender um palito, cortar uma das pontas e aspirar. É um misto de tranqüilidade, paz e calma interior. Praticamente, uma meditação mesmo que Infante não utilize esta palavra e a qual, tenho certeza, consideraria uma frescura.

Atitude politicamente incorreta? Desprezo pelos relatórios médicos mundiais de qualquer espécie? Sem dúvida alguma. Uma das características de Guilhermo Cabrera Infante era justamente sua assumida independência de tomada de posições e sua enorme teimosia. Caso contrári

o, não teria vivido mais de quarenta anos na Europa, fustigando impiedosamente o regime castrista, de seus antigos companheiros.

Dono de uma literatura exuberante, mescla de sua ascendência latino-americana e de sua vasta cultura européia, autor de pelo menos um dos livros fundamentais da literatura universal contemporânea (“Três Tigres Tristes”, de 1964, marco de sua literatura e de seu rompimento com Castro), Cabrera Infante usa e abusa, em “Fumaça Pura”, de um farto material historiográfico, literário e cinematográfico, “causos” diversos, de gags, trocadilhos (muitos intraduzíveis; ele adora misturar línguas, inglês, espanhol, até latim, o que obrigou ao tradutor,

fumacapura

Mario Pontes, um verdadeiro malabarismo lingüístico, no extremo do possível).

O livro é, assim, um largo ensaio bem humorado e divertido, sem ser estritamente humorístico e sem deixar de ser factual, sempre se apoiando em documentos. Seu inicio é, digamos assim, “normal”: conta a descoberta dos homens-chaminés por um dos homens de Cristóvão Colombo, Rodrigo de Jerez. Enviado para descobrir indícios de metais preciosos (ouro! ouro!), Rodrigo volta com estranhas histórias de pessoas que carregavam bastões fumegantes na boca e sopravam fumaça! Colombo teve que ver para crer, mas era verdade. Ele ainda não sabia, mas seus sonhos de riqueza estavam rapidamente se esfumaçando.

O tabaco é uma invenção americana! Cabrera Infante faz um breve apanhado da rápida  disseminação do hábito do fumo pela Europa. No entanto, não restringe seu texto ao relato cronológico. Ao contrário: em uma página, se aprofunda nas origens semânticas da palavra “tabaco” (um verdadeiro mistério); na próxima, pode se lembrar de um determinado filme, onde o charuto é mostrado de forma relevante; ou então um trecho de um livro importante ou as atitudes de um determinado ator ou diretor de cinema ou um escritor. Ou cita as diversas variantes, marcas e proveniências do tabaco; ou os diversos e corretos modos de se fumar o charuto ou de identificar as contradições do verdadeiro charuto cubano de Havana não ser mais cubano muito menos de Havana, apesar de continuar sendo produzido na pequena ilha.

A ironia constante continua pesada e rasgante, Fidel de forma alguma é esquecido: “Hoje, depois do fracasso de suas safras açucareiras, Castro cuida de tabaquizar Cuba inteira, semeando, em definitivo, a ‘maligna erva‘ nas antigas plantações de cana-de-açúcar. Curiosamente, Castro deixou de fumar, temendo por sua saúdealgo como se o câncer temesse o câncer“.

As piadas, as frases de efeito e os trocadilhos se sucedem em um ritmo alucinante: “Embora muitos cavalheiros não fumem, um fumante de charutos deve sempre aspirar à condição de cavalheiro. Conforme Sir Thomas Browne, um cavalheiro é apenas um homem que molesta menos. O cavalheiro fumante deve liberar o mínimo possível de transtornos, seja com o fósforo, seja com as cinzas. Não apenas deve saber como se acende um charuto, mas também como apagá-lo com a maior discrição. Conselho: certifique-se de que o charuto está morto e não o assassine, como se ele fosse um cigarro. Não o atire no chão! Isso não é nada cavalheiresco: os bons charutos morrem sem tirar as botas“.

Não fiz uma contagem, mas a impressão que eu tive é que Cabrera Infantecabrera1conhecia cada filme ou romance onde o fumo é mostrado ou citado ou lembrado. De Sherlock Holmes a Orson Welles, Billy Wilder ou “Casablanca”…  parece que está tudo aqui. No mínimo, a lista citada nominalmente por Infante é enorme!

Claro, não faltam farpas e ironias contra os antitabagistas de todas as espécies e épocas, do século XVI aos dias de hoje. Algumas comparações são realmente pesadas. Se você for um desses, certamente se sentirá ofendido. Mas, sinceramente, espero que seu amor por um texto esplêndido seja maior do que seu preconceito e não tenha medo de se intoxicar com ótima literatura, da mesma forma como não é necessário compartilhar do seu pensamento político anti-socialista para dar algumas boas risadas, mesmo que você seja um fervoroso militante castrista.

Caso contrário, sinto dizer que você estará mantendo uma certa saúde física, mas perderá uma concreta e enorme vitalidade cultural.

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10 Comentários em “A fumaça pura de Guilhermo Cabrera Infante”


  1. Charuto não é cigarro

    Não fumamos simplesmente
    Apreciamos, degustamos, nos encantamos lentamente
    Quem apenas “fuma” um charuto
    Se restringe ao ato de queima-lo
    Não vê nele alegria
    Nem tão pouco tem regalo
    Mas nós fumamos não fumando
    Charuto não é cigarro
    Quem fuma pra ver seu fim
    Não sabe aprecia-lo
    Uns começam por pompa
    Outros até por vaidade
    Mas terminamos encantados
    Com esse “vício” da liberdade
    O charuto é companhia
    Na leitura, na conversa
    No churrasco ou pescaria
    Fumamos porque gostamos
    E sabemos aprecia-lo
    Os que não entendem me desculpem
    Não podemos ensina-los
    Sentem-se um dia com a gente
    E tentem saboreá-lo.

    Valério valerio.adv@onda.com.br

    As crônicas foram extraídas do site:
    http://www.charutos.com.br

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  2. Excelente livro, já li dezenas de vezes.
    Recomendo um site com crônicas envolvendo charutos:
    http://fumacasmagicas.blogspot.com.br/

    Quanto ao ato de fumar como dizia Joelmir Betting sobre o Palmeiras eu digo sobre charutos: “Explicar para quem não degusta charutos o prazer de degustar é impossível e para quem degusta é desnecessário!” rsrsrsrsrs

    Fumo (ou degusto) charutos a uns 16 anos, mas não fumo com tanta frequência, fumei 3 ontem mas já fazia uns 3 meses que não fumava, pra quem não entende eu tento explicar, o charuto aje (ou age? já não sei mais) sobre o sistema nervoso dando uma sensação de bem estar e relaxamento. Ideal após um dia estressante ainda mais acompanhado de uma boa bebida.
    Recomendo os charutos Don Porfirio, Terra de Vera Cruz, Monte Pascoal, Dona Flor, Montecristo, Partagás, Davidoff Bundle Selection, Macanudo, etc…

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  3. É, meu rei, o ato de fumar vai se tornar uma tragédia das piores, mais cedo ou mais tarde. Tal qual já somos marginalizados só por manter uma carteira de cigarros no bolso, como se desse direito a vários nos dizerem que isso faz mal, como se não soubéssemos, mas pelo puro livre arbítrio de viver, experimentar e escolher, mantemos nossas carteiras de cigarro. Mas o charuto, diferente do estopim ou estampido de prazer que é um rápido cigarro, o charuto é uma orgia, o prazer em volta do prazer, a leveza, a descoberta positiva, a revelação do sorriso do amor na noite de núpcias. O charuto é reveillón e champanhe, o cigarro é cerveja e petisco. E ao amigo daí de cima, com dúvida, o charuto pode ser mais caro, mas é pureza rodeada de sabor. E não se deve tragar não, o certo é deixar a fumaça correr pelas papilas gustativas, pois estas ficam ampliadas em sua capacidade. Por isso, uma dica, um bom uísque na ponta de fumar do charuto e uma boa puxada deixam o sabor ainda mais intenso. Aí te digo, com uísque é como uma das mais belas pin-ups passando a língua em sua orelha. Uma delícia só.

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  4. Anin Says:

    O ato de fumar é um inconstestável prazer e, além de politicamente incorreto (?) é sem dúvida uma roleta russa. Fiquei fã do conjunto blog, blogueiro, texto. E, irrazoavelmente, continuo fã do cigarro.

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  5. Tati Says:

    Cade vc???

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  6. eddiney Says:

    tabaco é um porre sem graça ou melhor uma dez-vezes-graça

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  7. Tati Says:

    Ufa!!! Voltastes… Em bom motim contra o tabaco nesta terra acinzentada, stressada em que não podemos mais nos sentar num botequinho e simplesmente fumar nosso cigarrinho… Um beijo, meu querido, muita saudade de vc.

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  8. akio Says:

    Bom que voltou, Claudinei. Legal!
    Fui fumante de cigarro, mas houve uma época que queria mudar para charuto. É bom, mas não é para qualquer um: custa caro. O meu problema também foi como se deve fumar um charuto. Pergunto hoje, deve-se tragar? Deve-se fumar inteiro ou pode-se deixar o restante para outro dia? É como a garrafa de vinho. Não consigo beber inteira. Levo três semanas para acabar, até aí, o vinho se oxidou, perdeu o sabor, mas seria sacrilégio jogar fora, assim bebo oxidado mesmo..ehh.. Seria um sacrilégio?
    Hoje não fumo mais por questão de saúde. Mas seria bom saber, só para saber desses detalhes acima que citei. É “uma pergunta que não quer me calar”.
    Abraço
    Akio

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