A dança dos quadrinhos no Brasil, parte 2: A Companhia das Letras entra na dança

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Caso minhas expectativas estejam corretas, a formação de um selo dedicado  exclusivamente para quadrinhos por parte da Companhia das Letras pode significar muito mais do que à primeira vista pode parecer. Através de um pragmatismo pleno que foi se maturando ao longo dos anos (além das obras que já citei anteriormente, não nos esqueçamos das obras de Eisner!, por exemplo!) e trazendo a carga de seriedade que a editora carrega, há possibilidade de, afinal, no Brasil se formatar o pensamento das novelas gráficas como obras de arte, Desde que como projeto editorial consumado. 

Isto é, não somente como obras únicas e independentes. Não somente como exceções. Não somente como opções interessantes (ou até muito interessantes), e que se colocavam como representantes de um ramo um tanto ou quanto bizarro (quadrinhos!), embora não ‘sérias’. Novelas gráficas encaradas como uma verdadeira linha editorial e colocadas no mesmo patamar de obras de literatura (as tais realmente ‘sérias’!). Ter um selo desses, proveniente de uma editora do porte da Companhia das Letras tem o mesmo valor e o mesmo peso, em termos nacionais (e guardadas as devidas proporções, por favor) de obras de novelas gráficas nos Estados Unidos ganharem prêmios literários como o Guardian First Book Award ou até de jornalismo como o Pulitzer.

Isso é um começo (um mero início) de que pode-se mudar o conceito e a recepção das obras de novelas gráficas, como nunca antes. Não acontece de forma casual. Não houve uma iluminação zen-budista nos editores da Companhia. Tudo isso faz parte do mesmo movimento e de uma intensíssima agitação em terras brasileiras. A Opera Graphic deixar de funcionar também faz parte da equação. Talvez se preocupar menos com o elevado e desproporcional luxo das edições em um país onde a quantidade de leitores é irrisória e a porcentagem dos que se dedicam a separar uma parte de seu dinheiro para novelas gráficas é ainda menor, quem sabe seja somente uma questão de bom senso.

Espero não dar a impressão de detestar livros e edições luxuosamente encadernados e com primorosa (e custosas) publicações. Não sou nada contra. É maravilho tê-los em mãos. Eu só gostaria de maiores oportunidades de conseguir alguns.

Claro que questão do preço também se relaciona com o respeito com os leitores (e com a possibilidade de se vender os exemplares, oras…). No ano passado, logo após o anúncio da criação do selo Quadrinhos na Companhia, o blog especializado em quadrinhos Gibizada perguntou a André Conti, editor responsável pelo Quadrinhos na Companhia, exatamente sobre isso:

Blankets” e “Jimmy Corrigan” (e “American Born Chinese”) serão publicados em edições únicas? Será possível publicar “Blankets” em uma edição não muito cara, já que o livro tem 600 páginas

André Conti: Os três livros serão publicados em volume único, e não devem passar dos R$ 50, o preço médio de um romance grande. Esses valores ainda não estão fechados, mas estamos trabalhando com essa margem.”

Claro, cinquenta reais (caso seja mantida essa média) não é um preço barato, mas ainda assim está-se bem longe do que era praticado pela Opera Graphic. No entanto, o que mais gostei foi a comparação com ‘romances’, usado como exemplo para a avaliação.

E, claro também, há que se pensar como isso vai realmente vai se efetivar, o que vai acontecer na prática. Quem viver, verá. E lerá.

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