MÚSICA PARA CAMALEÕES

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Capote esteve em alta por conta do filme estrelado por Philip Seymour Hoffman, como é mais do que natural. Portanto, há uma quantidade de pessoas maior do normal que já conhece um pouco de suas idiossincrasias, um pouco do seu comportamento, e quem sabe, até se animou a conhecer sua obra, em especial o seu “A Sangue Frio”. O processo obsessivo de criação, a sua fidelidade a um tipo de ideal artístico que se propõe a passar por cima de normas pré-estabelecidas, a sua ânsia por estabelecer suas próprias, além de sua confiança de poder realizar isso. E, é obvio, sua arrogância, prepotência, egocentrismo, etc e tal. Nada disso é novo.

O que vai alem do filme é o próprio livro. Portanto, passemos por fora da adaptação cinematográfica e consideremos o poder de sua escrita. Há uma fúria em “A Sangue Frio”, cuidadosamente trabalhada e construída, independente do seu tema e dos personagens / pessoas. A obra choca e impressiona, mas não por conta do assassinato ou das vítimas. O que paira de força aqui, o que determina que exista um divisor de águas na escrituras do jornalismo / não-ficção / do new journalism / do romance não-ficcional (não importa o nome que se dê) (e que, aliás, não foi exatamente uma invenção sua; há exemplos de outras obras pelo estilo; a diferença é a sua segurança e o fato de assumi-lo como um projeto literário específico), é patente e logicamente o próprio Truman Capote.

No entanto, atingido este patamar (e aproveitando-se de toda a glória [merecida] que amealhou), o que se fazer em seguida? Poderia se deitar nos louros e aproveitar a fama. Já havia alcançado o pico, já provara e se provara a si e ao demais. Na verdade, estivera fazendo isso pela vida inteira. Ele diz que começou a escrever com oito anos e bem pode ser real mesmo: “Um belo dia comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação. Mas é claro que eu não sabia disso. Escrevia contos de aventuras, de mistério policial, esquetes, histórias que ouvi de ex-escravos e veteranos da Guerra Civil. Era tudo muito divertido – num primeiro momento. Só parou de ter graça quando descobri a diferença entre escrever bem e escrever mal, e em seguida fiz uma descoberta ainda mais alarmante: havia uma diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; sutil, mas devastadora. Daí em diante, o chicote não parou mais de descer!”.

Nunca mais parou de descer. Talvez seja por isso que seus últimos tempos tenham sido tão perturbados e á espera de mais uma nova obra que ultrapassasse as anteriores; talvez tenha sentido que não conseguia mais passar, a busca teriatruman_capote1 terminado?

Uma resposta foi “Answered Prayers”, que terminou inacabado, pelo qual fez suas experimentações, escreveu alguns capítulos, publicou-os em uma revista (e foi acidamente criticado, por fazer referências a pessoas e fatos reais do seu convívio imediato). Ele diz que não se importou absolutamente com estas críticas (e bem pode ser verdade mesmo), mas ao reler o que havia escrito sentiu uma insatisfação profunda. Releu trabalhos anteriores (até “A Sangue Frio”) e percebeu que estava desperdiçando suas forças, ou melhor, não as estava utilizando corretamente. Havia falhas, potencialidades não aproveitadas. Tinha os instrumentos e todos estavam limados e afiados, sabia usar os diversos meios a sua disposição. Mas como dispô-los em um único local? Como combina-los (“e, nos casos apropriados, simultaneamente”)?

Retomou “Answered Prayers”, reescreveu, eliminou capítulos. Mas ainda não era por aí. Retomou fôlego, exercitou-se, retrabalhou. Quis reinventar. E reinventou. O resultado é “Música para camaleões”, que acabou sendo seu último livro completado.

Contos e novela de não ficção, ao lado de pura ficção. Não importam os termos. É pura literatura. Capote se superava de novo.

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Formalmente, há duas diferenças básicas entre “A Sangue Frio” e “Música para camaleões”. Enquanto naquele o narrador era mantido à distância, como uma espécie de exigência para a condução da narrativa, de não-comprometimento do autor com a história (relativo, pois o narrador, mesmo que não se explicite está sempre onipresente). Aqui, a virada é de cento e oitenta graus: não só o narrador em sua maioria é na primeira pessoa, como o personagem principal é Truman Capote. É ele quem conduz, informa, conversa, apresenta os demais. Somos ferreamente conduzidos pela história e conhecemos as pessoas através do contraste consigo mesmo. É incrível como isso, apesar de tão simples, dá uma tônica completamente diferente e provoca algumas reações imediatas: em primeiro, por conta da identificação do leitor com o narrador / personagem / capote, nos colocamos no seu lugar, percebemos as sensações do mesmo modo como fôssemos nós a vivencia-las. É lógico que o método é aparentemente simples, mas isso é enganoso: é fácil, facílimo de ser identificado, mas sente-se de imediato como a escrita deve ter sido montada, remontada, limada e retrabalhada para se chegar a este nível. Por conta disso, tradução nenhuma poderá dar conta do primor como esta linguagem foi escrita (e aí não vai nenhuma crítica ao tradutor Sergio Flaksman que, até onde vejo, realizou um ótimo trabalho; a questão seria com qualquer tradução de qualquer pessoa).

Um outro detalhe formal é a utilização dos diálogos, que atingem um patamar extraordinário. Em poucas palavras, em pouquíssimo tempo, sentimos a personalidade das pessoas com quem Capote conversa, quase não se fazendo necessárias algumas das introduções de apresentação aos contos. Em “Um dia de trabalho”, por exemplo, acompanhamos a rotina da faxineira Mary Sanchez enquanto percorre as casas onde trabalha. Suas atitudes, seus pensamentos, sua conduta, são cristalizados à medida que vai falando, nem precisava que Capote nos tivesse feito uma pequena descrição de Mary no começo.

Na novela “Caixões entalhados à mão”, o contraste é direto e mais vívido com “A Sangue Frio”. O tema também é um crime, neste caso um serial killer que gosta de avisar a próxima vítima com uma foto e um pequeno objeto manufatura no formato de um caixão. O tratamento, no entanto, é completamente diverso, seguindo estas indicações que fiz acima. O que Truman faz é dizer, na prática, “Olha, esta é a forma nova de contar a mesma história, não preciso me repetir”.

O que vale é esta incessante procura por contar as mesmas histórias de modo diferente, a seu modo, exclusivamente Truman Capote. E que funciona. “Música para camaleões” comporta algumas das melhores composições da literatura norte-americana. Onde a ironia se mistura com o trágico e o dramático, pari passu, a descrição miúda com os diálogos abertos, pequenas fantasias do cotidiano com momentos reveladores. Em “Uma criança linda”, lemos uma das mais fantásticas e belas descrições do mito Marylin Monroe, com toda sua beleza, sensualidade, insegurança e fragilidade. No conto que dá título ao volume, conhecemos uma esnobe e interessantíssima madame da Martinica, ao tomarem chá ou ouvindo-a tocar Mozart enquanto os camaleões os observam. Somos levados para dentro de um casamento fracassado, mas estranhamente acomodado, em “O Sr. Jones” e precipitados para pequenos flashes onde as vidas são mudadas ou determinadas por causa de movimentos mínimos da realidade em “Hospitalidade” ou “O Fulgor”, ou então assistimos uma bizarra forma de texto confessional em “Turnos noturnos ou Como gêmeos siameses fazem sexo”.

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