O Cinema de F. W. Murnau: Mostra ‘Poemas Visionários’ no CCBB

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Já faz um tempo, mas me lembro vividamente. A cópia que eu assistia naquele cinema decadente era péssima, o que apesar da expectativa acabou servindo para tornar ainda mais impressionante o preto-e-escuro. O preto era um negrume absoluto, fazendo com que o branco se destacasse mais ainda. Dessa forma, quando o Nosferatu se levanta do seu caixão-residência, o único que se via eram suas mãos, compridas e ossudas e o rosto. Foi a primeira vez. Mais tarde, em outras sessões com cópias bem melhores, percebi com ironia que a cor negra não era tão profunda assim, e nesta cena é possível ver o cenário que está em volta, o que me deixou um tanto quanto decepcionado: o efeito que eu tinha visto antes funcionava muito mais! Mas, claro, Murnau não podia prever o ‘efeito’ provocado por más condições de exibição.

De qualquer modo, Murnau me impressiona, mais especificamente com este ‘Nosferatu’ (junto com o ‘Gabinete do Dr. Caligari’, de Robert Wiene), foram os que me ensinaram o quanto a criatividade, originalidade, e inteligência, não são tributos de uma idade, nem de uma época. Ao contrário. Ao rever estes filmes, pode ficar impressionado (e eu fico sempre) com o quanto eles ainda podem nos ensinar e aos cineastas e espectadores atuais. Pois está tudo aqui, com toda a força e beleza, que na minha infância (e na cabeça de muita gente ainda hoje) parece tão inacreditavelmente moderno. Lembro também que naquelas sessões, eu não me continha e ficava pensando (´caramba, isso é um filme de terror mudo e funciona! é realmente aterrorizante, este vampiro impacta, e é filme mudo!’). Impressionaram a mim, como terror, tal como filmes policiais, de aventura, crítica social ácida, experimentalismos visuais e narrativos. Está tudo aqui.

O CCBB montou esta visão panorâmica do trabalho de Murnau, comemorando os 120 anos de seu nascimento, e é muito bom que esteja sendo realizada assim e não dentro de uma mostra-monstro como a de São Paulo, pois para não se ficar perdido no meio de milhares de outras opções.

Fundamental e importante e muito esclarecedor e impactante que tenha sido para mim, percebo agora que assisti somente a três filmes de Murnau, ‘Nosferatu’, ‘Aurora’, e ‘A Última Gargalhada’, justamente os que sempre participam de mostras do gênero e os que traziam cópias para cá. O CCBB trouxe filmes raros por aqui e pretendo aproveitar cada um deles.

abaixo reproduzo o release da mostra.

murnau“CCBB apresenta

Poemas Visionários – O Cinema de F. W. Murnau

* Mostra inédita em comemoração ao aniversário de 120 anos do cineasta acontece de 19 a 30 de novembro no CCBB de São Paulo

* Serão exibidos 12 filmes, todos os que estão disponíveis ainda hoje, a maioria em película

Poemas Visionários – O Cinema de F.W. Murnau traz clássicos do diretor expressionista alemão como Nosferatu, Fausto, A Última Gargalhada e Aurora, ao lado de obras de rara exibição no país (Terra em chamas, Fantasma e As Finanças do Grão-Duque). A mostra comemora os 120 anos de nascimento de Murnau, que, com sua genialidade, abriu novos caminhos na cinematografia internacional, tornando-se um dos mais importantes diretores de cinema mudo e expressionista. Poemas Visionários estará em cartaz no CCBB de São Paulo entre 19 e 30 de novembro; em Brasília, de 4 a 16 de novembro; e, no Rio de Janeiro, a mostra foi exibida entre 28 de outubro e 9 de novembro.

No período de pouco mais de uma década, Murnau realizou 21 filmes. Poemas Visionários apresenta os 12 disponíveis ainda hoje, da fase alemã até a fase americana. Onze estão em película – 35mm e 16mm – e um em DVD, todos com legenda em português.

Os movimentos rápidos, as luzes moduladas com sutileza e o espaço aberto fascinavam o cineasta. Murnau registrava com total habilidade e sensibilidade paisagens aparentemente intocadas, a imensidão dos mares, o bramir dos ventos, as forças indomáveis da natureza e, ao mesmo tempo, o espetáculo das cidades e sua arquitetura diversificada. Expoente do cinema expressionista alemão, cujo desenvolvimento após a Primeira Guerra exprimia uma realidade interior oprimida, de uma sociedade profundamente abatida, Murnau explorava os temas fantásticos, sombrios, os anseios e medos infantis (Nosferatu, Fausto, Tabu); sua empatia pertencia aos marginalizados, aos ingênuos, aos que a modernidade ameaçou e aos que sofrem com os conflitos contemporâneos do pós-guerra.

Em seus filmes apresenta-se o eterno conflito entre o mundo natural e a civilização moderna, entre a inocência e o artificialismo que condiciona as relações das pessoas em sociedade.

Os filmes

O Caminho da Noite (1921), sétimo filme de Murnau, é também seu mais antigo título preservado. Nele, revela-se uma das principais características de seu cinema: o olhar expressivo – o encontro e desencontro dos olhares, o olhar vazio, o olhar que revela a alma.

auroraEm Aurora, primeiro longa em solo americano, premiado com três Oscar® na primeira cerimônia dos Academy Awards, em 1928 (incluindo melhor atriz para Janet Gaynor), a encenação do olhar permanece evidente. “O filme mais belo do mundo”, como diria Truffaut, mantém também o movimento da imagem inaugurado em A Última Gargalhada.

Com Emil Jannings no papel principal e roteiro de Carl Mayer (parceiros de muitos filmes), A Última Gargalhada inaugura a câmera em movimento, até então estática. Tudo está em movimento entusiasmado, não apenas a câmera, mas também o movimento diante dela – são os novos tempos, a vida moderna, os automóveis, a porta giratória, o parque de diversões, a agitação da cidade.

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Outros clássicos são Nosferatu, baseado na novela de Bram Stocker, cujas bem-sucedidas caracterização do vampiro, por Max Schreck, e ambientação de horror são das mais célebres da história do cinema; Tartufo, adaptado na comédia de Molière, em que a crítica à hipocrisia é apresentada pelo filme dentro do filme; e o último título da fase alemã, Fausto, inspirado pela obra de Goethe, é o que mais representa em seu cinema o questionamento moral do homem.

Seu último filme, Tabu, rodado no Taiti, foi inicialmente realizado com o documentarista Robert J. Flaherty (de Nanook – o Esquimó, O Homem de Aran), que se desentendeu com Murnau por acreditar que o cineasta romantizava a vida dos ilhéus. E, mesmo assim, ao apresentar um lugar paradisíaco e abençoado, Murnau mostra a degeneração humana, o amor puro e inocente versus a lei divina utilizada como artifício pela comunidade para regular a si própria.

Com pleno domínio da linguagem cinematográfica, Murnau tornou-se um diretor cultuado por cinéfilos do nosferatumundo todo, motivo pelo qual os curadores Arndt Roskens e Cristiano Terto decidiram reunir todos os seus filmes disponíveis nesta mostra. “Os filmes dele são indispensáveis objetos de estudo para todos os amantes e estudiosos de cinema e arte”, afirma Roskens.

A mostra Poemas Visionários – O Cinema de F.W. Murnau, idealizada por Arndt Roskens e Cristiano Terto, é patrocinada pelo Banco do Brasil por meio da Lei Rouanet, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil e tem apoio do Instituto Goethe.

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