“Assuntos de Família”, de Rohinton Mistry

8573025069_normalO começo de “Assuntos de Família” é familiar e doméstico. Descreve a pequena batalha diária de Coomy e Jal para impedir que o pai adotivo, Nariman, faça seu passeio habitual pelas ruas de Bombaim. Nariman Vakeel está fazendo 79 anos de idade e sofre do Mal de Parkinson, o que torna seus passeios cada vez mais complicados, ou no dizer de Coomy e Jal, “perigosos”. Um pequeno contratempo, uma torção no tornozelo justamente no dia de seu aniversário, um dos únicos momentos em que ele vê sua filha caçula Roxana e os netos, provoca uma crise. O acidente posterior, no entanto, é mais sério: ele precisa ficar imobilizado na cama durante pelo menos dois meses.

Coomy e Jal não suportam o trabalho: tirar e escovar a dentadura, tomar conta das fezes e urina, dar banho… Eles se livram do fardo, praticamente depositando Nariman na casa da meia-irmã, em um apartamento minúsculo em que mal cabem Roxana, seu marido e os dois filhos.

O que poderia se tornar facilmente uma comédia simplista de costumes, com alguns toques amargos e realistas, nas mãos de Rohintron Mistry torna-se uma crônica humanista, delicada e perfeitamente equilibrada. Desde o primeiro momento, somos tomados pela simpatia de Nariman, o seu bom senso derivado da idade e dos seus tempos de professor de literatura, as suas tiradas filosóficas e humoristas. Ficamos enojados com a mesquinharia e hipocrisia de Coomy e a fraqueza de caráter de Jal, que acaba fazendo tudo o que manda sua irmã. Admiramos a beleza e firmeza de Roxana, o saudável ceticismo de Yezad, seu marido, e a força da juventude dos filhos. É uma família agradável, com todas as suas idiossincrasias e problemas.

Mistry não cai, no entanto, em um reducionismo caricatural. Se Coomy e Jal são mesquinhos ou covardes, eles são humanos o suficiente para que os sintamos reais e tridimensionais. Mistry provoca aquele desagradável sentimento de reconhecimento quando, ao não gostarmos de um personagem, percebemos o quanto ele expressa características que são próprias de nós mesmos.

Yezad professa uma liberalidade de pensamento e critica a religião da mulher; no entanto, ao mesmo tempo impede seus filhos de sequer tocar na comadre que recolhe as fezes de Nariman, a ponto de terem que chamar a vizinha para fazer isso quando Roxana não está em casa. E por mais simpatia que possamos nutrir por Nariman, não há como não se sentir incomodado quando a comadre não chega a tempo e ele acaba sujando toda a cama, os lençóis e o chão ao redor. Quem pode dizer que encara isso com naturalidade?

Nariman em casa de Roxana provoca profundas e óbvias reavaliações em seu passado e em suas relações familiares, desencavando dores e complexos mal resolvidos, enquanto Coomy e Jal traçam planos dignos de uma novela mexicana para impedir que ele volte para casa. E quando parece que o livro vai ficar girando em torno destes problemas, Mistry provoca outra reviravolta e passamos a acompanhar a vida de Yezad. Sua ida ao trabalho, uma loja de artigos esportivos, principalmente de beisebol, o esporte nacional; sua relação com o chefe, um sonhador quase-infantil que coleciona fotos antigas de Bombaim; conhecemos seu amigo Vilas, um personagem que, para nós brasileiros, provoca uma enorme identificação pois lembra de imediato Dora, a personagem protagonizada por Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”: ambos dedicam parte de sua vida a escrever cartas para pessoas que não sabem ler nem escrever. Embora as motivações de Dora e Vilas sejam completamente diferentes, o resultado é idêntico: através das cartas, vamos conhecendo uma outra realidade, antes oculta pela impossibilidade de expressão dos analfabetos, histórias de solidão, desconforto, laços familiares quebrados.

Acabamos perdendo Nariman de vista. Agora, é a própria Índia que nos é mostrada em toda a sua pujança, beleza, contrastes sociais e econômicos e preconceitos políticos e religiosos.

“Assuntos de Família” dá continuidade a uma obra que desde o começo foi reconhecida e aclamada como uma das mais importantes da literatura contemporânea. Rohintron Mistry nasceu em 1952, na própria Bombaim, em uma família parsi, uma minúscula comunidade religiosa que segue os preceitos de Zoroastro. Em 1975, ele realiza os sonhos de qualquer jovem indiano que tenha algum grau acadêmico: sair da Índia e trabalhar nos Estados Unidos, Inglaterra ou Canadá. Mistry forma-se em Matemática e Economia e muda-se para o Canadá com sua mulher. Símbolo máximo de status para os amigos de sua geração, consegue emprego em um banco como caixa. Entra para a Universidade de Toronto para aprender Inglês e Filosofia e começa a escrever alguns contos. Ao participar dos concursos literários internos, consegue uma proeza: é o primeiro indiano (aliás, o primeiro não-canadense) a conseguir o primeiro lugar. No ano seguinte, repete a proeza. Ao publicar estes contos em livro, em 1987, “Tales From Firozsha Baag” e, mais tarde, com “Such A Long Journey”, em 1991, vai ganhando cada vez mais prestígio e admiração.

Em 1995, publica seu primeiro romance, “A Fine Balance” (“Um Delicado Equilíbrio”, publicado aqui também pela Objetiva), um pesado e amargo retrato de uma Índia convulsionada pelos conflitos religiosos e políticos, durante o governo de Indira Gandhi, até esta ser assassinada. É o livro que o torna conhecido mundialmente, ganha vários prêmios (Giller Prize em 1995 e, em 1996, o Los Angeles Times Prize for Fiction para a categoria ficção; “Such a Long Journey” recebeu o Governor General’s Award e virou filme).

O que vale, naturalmente, em sua literatura não são as premiações. “Um Delicado Equilíbrio” e “Assuntos de Família” são livros necessários que misturam humor, crítica social, suspense, lirismo. Faz chorar, rir, assombrar de medo e gosto.

Sua leitura é uma experiência completa como há muito tempo não tinha lido.

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2 Comentários em ““Assuntos de Família”, de Rohinton Mistry”

  1. Claudinei Vieira Says:

    Ricardo, você abriu caminhos! – heheh – grande abraço

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  2. querido claudinei, muito me honra saber que fui o inaugurador do desconcertos etílicos na casa das rosas. abração.

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