A história maravilhosa de Peter Schlemihl

No começo do século XIX, um pequeno livro, pouco mais que um conto, com uma história que poderia ser facilmente confundida com uma fábula infantil, fez um sucesso louco. Era vendido em toda a Europa, lido por todas as classes sociais, provocou discussões que duram até hoje e fez a fama imorredoura de um naturalista e poeta alemão de origem francesa.

O enredo de “A História Maravilhosa de Peter Schlemihl” lembra mesmo uma fábula, um conto de fadas. O jovem Schlemihl se depara com uma inusitada proposta de um estranho personagem, um senhor empertigado, seco e tímido. Em troca de uma bolsa mágica que nunca para de fornecer moedas de ouro, ele compraria sua sombra. Schlemihl sabe que ele fala a verdade, pois já o havia visto tirar um tapete, uma barraca e cavalos! de dentro do bolso. Sem pensar muito, ele aceita a transição. Então, com calma e eficiência, “com habilidade” como diz Schlemihl, o velho se abaixa, enrola a sombra e se afasta, dando um riso baixinho. É um dia ensolarado e tranqüilo e não existe nenhuma sombra dele. As conseqüências não tardam a acontecer e logo ele se arrepende do que fizera. As pessoas estranham e se afastam. Começa a ser perseguido e escorraçado, afastado da sociedade. Gritam: “Pessoas decentes costumam levar a sombra junto, quando saem ao sol”. Agora, ele é um estranho, um verdadeiro estrangeiro por onde quer que passe. É rico, milionário como mais ninguém poderia ser em toda a face da Terra, mas não tem mais convívio social, não tem mais identidade, não pode sonhar em se casar e ter filhos, ter uma vida normal como qualquer pessoa comum que possui sombra.

Tudo piora quando se apaixona pela bela Mina, filha de um modesto chefe florestal. Nenhum dinheiro do mundo poderia convencer os pais dela de que poderiam se casar. Aliás, nem ela mesma poderia saber. Por isso, eles só se encontram de noite e em lugares onde não haja incidência direta de luz.

O velho volta e propõe um novo negócio: ele devolveria sua sombra em troca de sua alma! Schlemihl resiste e nega. Até que um criado mau-caráter aproveita-se da situação, conta para a família de Mina que Schlemihl não tem sombra (depois de ter roubado milhares de moedas da bolsa) e se torna o noivo oficial.

Desesperançado, agastado, Schlemihl vagueia, sozinho, sem propósitos nem direção. A bolsa de nada lhe serve e acaba esconjurando-a e jogando-a para o fundo de um precipício. Agora, pobre e sem sombra, acaba se deparando com um par de botas velhas que compra de um mascate com suas últimas economias. As botas se revelam as famosas Botas-de-Sete-Léguas! Daí por diante, a única ocupação de sua vida será conhecer cada recanto da Terra e colocar seu conhecimento em livros que possam servir para outros pesquisadores e cientistas.

Pois bem, esta história bobinha provocou uma comoção pela Europa e por todos os lugares por onde foi editado. Chamisso era ele mesmo um naturalista que viajou pelo mundo, publicou várias obras derivadas destas viagens, era botânico, zoólogo, químico. Poeta, foi aclamado como um dos clássicos absolutos da língua alemã, ao lado de Goethe e Heine. Mas, no final das contas, é por “Peter Schlemihl” que ele continua sendo conhecido.

É justo perguntarmos, então, o que há de tão especial em “Peter Schlemihl” para todo este impacto. Acontece que essa é uma discussão eterna que vem desde quando ele foi publicado em 1814. Quem tiver a resposta correta, ganha … a bolsa mágica de moedas de ouro de Peter Schlemihl.

É óbvio que ele toca em emoções e sentimentos recalcados que vão além de sua história. Existe aqui um caso de profunda identificação e compaixão.

Pode-se pensar, por exemplo, em como estava a Europa naquele começo de século. Se lembrarmos dos imensos movimentos migratórios que ocorriam pela época, com imensos bolsões populacionais que não possuíam nem podiam reinvidicar uma identidade própria, talvez possamos ter por aí uma pista. É preciso lembrar também que os processos de formação dos estados nacionais ainda não estavam completos, as fronteiras não estavam solidificadas e que a Alemanha é justamente um dos últimos países a se constituir como um país unificado, assim como a Itália, isto é, boa parte desta mesma Europa.

Temos que levar em conta a própria vida de Chamisso. Nascido de família aristocrática que teve de fugir do país por causa da Revolução Francesa, chegou em terras prussianas quando já tinha nove anos de idade. Seu nome era Louis Charles Adélaïde, Visconde de Chamisso. Entrou para o exército prussiano e chegou a combater Napoleão. Começou a escrever poemas quando ainda combatia. Após deixar o exército, durante muito tempo, ficou indeciso sobre onde fincaria finalmente suas raízes. Participou de uma expedição pela Rússia, atendendo a um antigo desejo de se dedicar às Ciências Naturais. E é como naturalista que visita praticamente todos os continentes (também esteve no Brasil, em Santa Catarina) e é nomeado diretor vitalício do Jardim Botânico de Berlim pelo imperador. Nesse meio tempo, muda seu nome para Adalbert von Chamisso. Em “Peter Schlemihl”, Chamisso se diverte em jogar fatos e elementos reais de sua vida no meio da aventura do seu personagem. Ou seria isso mais do que diversão, e sim uma verdadeira identificação e aproximação?

Além destas considerações históricas e biográficas, há uma gama de explicações cientificas e plenamente razoáveis: os movimentos culturais, o romantismo alemão, as bases renascentistas, a literatura de fantasia e terror, as famosas “novelas fantásticas”, cujo ápice seria alcançado por um Hoffman e um Poe. Além das racionalizações econômicas, sociais, psicanalíticas, etc, disponíveis para todos os gostos.

A própria significação do que representaria a sombra, ou sua falta, já tirou o sono de muita gente. A perda da sombra é uma referencia direta ä perda de identidade pessoal, nacional, mental, espiritual? Ela é em si a alma mesma ou uma semelhante? Thomas Mann, no posfácio acoplado nesta edição da Editora Liberdade, conta que, quando perguntado sobre o que é, afinal, a sombra, Chamisso teria respondido com o conceito tirado de uma obra de física “Da Sombra: Um corpo opaco não pode jamais ser iluminado por um corpo luminoso senão parcialmente e o espaço privado de luz, que está situado no lado não iluminado, é o que chamamos de sombra”. O que é uma forma muito engraçadinha de não responder nada.

Tudo o que podemos fazer, na verdade, é desfrutarmos desta bela historinha de contos de fada adulta e aproveitar desta agradável e bonita reedição da editora Estação Liberdade que, além do posfácio de Thomas Mann citado, ainda traz os desenhos clássicos de Emil Pretorius.

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One Comment em “A história maravilhosa de Peter Schlemihl”

  1. akio Says:

    Claudinei, boa resenha. Até parece que li o livro. Você trouxe um autor que nunca tinha ouvido falar. (Que ignorância minha. Não tenho lido nesses últimos meses.)
    Quando se fala em sombra no sentido literário, interpreto automaticamente como uma força ameaçadora, oculta e opressiva, portanto, uma crítica sutil à situação do pais ou do mundo. Creio que caiba nesse conto, além de representar também, no caso do personagem Peter, que vendeu a sua sombra, como um esvaziamento do ser e isolamento da alma com o corpo. Poderia representar também, uma desagregação do homem em relação a sociedade da época. É claro, poderia também eu estar falando tremenda besteira. Talvez tenha que ler esse livro.
    Abraço
    Akio

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