Camus e o Teólogo

A capa da edição original de “Albert Camus e o Teólogo”, de Howard Mumma, mostra uma foto incomum, no mínimo diferente, do Camus que estamos acostumados a ver. Ele está sentado, agitado, em uma discussão acalorada, as mãos estendidas em direção ao seu interlocutor (o qual não vemos). Talvez seja uma referência direta ao lado mais polêmico de suas idéias: suas diferenças com relação à Religião ou à crença em um Deus ou ainda o fato de este livro ser uma reconstituição de várias discussões com o autor, um pastor metodista e, portanto, um representante dos “crentes”.

A edição brasileira da Carrenho Editorial optou por um outro caminho. A foto, ou pelo menos a imagem, é bem mais conhecida e comum. É um Camus sério e calado, reflexivo, olhando para baixo, a testa franzida. Seu rosto está parado e calmo, mas seus olhos transmitem uma angústia profunda, incômoda.

Não quero dizer que uma dessas imagens seja referente a um Camus mais “verdadeiro” ou “real”; acredito, no entanto, que a edição brasileira seja mais feliz ao refletir o espírito desse livro, ao Camus retratado por Howard Mumma.

Por Mumma, ficamos conhecendo justamente um Camus angustiado e infeliz, para quem a questão da falta de um sentido lógico para o universo não é simplesmente uma pergunta filosófica ou literária, mas um eixo de vida. Identificado com a corrente filosófica do Existencialismo, cujo representante maior foi Sartre, seus romances refletem esta profunda inquietação. O fato de que seus livros tenham tido um sucesso absoluto, de que fosse reconhecido como um ícone dos franceses a ponto de ser uma celebridade e de acabar ganhando o Prêmio Nobel em 1957, são os indícios mais claros de que suas preocupações eram de fato as preocupações de toda uma era histórica.

A humanidade, ainda atônita com os horrores da Segunda Guerra e oscilando entre um niilismo absoluto e as fechadas alternativas de participação política por meio dos partidos comunistas, se reconhecia nele. E, de certa forma, isso explica porque sua morte, em um estúpido acidente de carro três anos após receber o Nobel, foi tão facilmente atribuída a uma tentativa, bem-sucedida, de suicídio.

Com este livro, ficamos conhecendo algumas facetas desconhecidas desse grande pensador. Camus teria dito que “há muitas coisas a meu respeito que as pessoas não esperam”. Se acreditarmos em Howard Mumma, Camus caminhava para uma solução religiosa para suas indagações pessoais. O norte-americano teria lhe fornecido a sua primeira bíblia em francês, teria discutido o verdadeiro significado da história de Adão e Eva e de outras passagens bíblicas. E, por fim, Camus teria lhe dito que estava pronto para ser batizado!

Howard Mumma reconhece que essa era uma “improvável amizade entre um reverendo americano de Ohio e um grande existencialista francês”.

Formado pela Yale University e pela Yale Divinity School e doutor honoris causa pela Ohio Northern University, Mumma nasceu em 1909, estava com mais de 90 anos quando publicou esse livro e em plena atividade.

Essa “improvável amizade” começou quando foi convidado para dirigir os sermões na Igreja Americana, na sua sede francesa em Paris nos anos 50 e Camus passou a freqüentar a Igreja para ouvir o famoso organista Marcel Dupré que acompanhava os sermões. No final das contas, ele teria ficado interessado pelas idéias do metodista. Como bom intelectual consciente, pesquisou, buscou outros escritos de Mumma e acabou convidando-o para almoçar juntos e conversarem. Outras conversas se seguiram. De um lado, o recatado e tímido filósofo ficava cada vez mais fascinado e entusiasmado; do outro, o teólogo, mais ou menos intimidado com a presença dessa figura tão proeminente e com a importância que este dava às suas palavras.

Howard Mumma não possui a pretensão de ser um escritor, nem almeja montar um quadro definitivo, profundo e, ao mesmo tempo, abrangente e emocionado dessa relação. Isso tem seu lado bom e ruim. Seu relato é bem simples e direto; sua memória é auxiliada pelas anotações resumidas que escrevia após essas conversas. Ele até se desculpa por ter colocado palavras na boca de Camus para poder preencher os claros, mas sempre com a preocupação de nunca atentar contra o seu pensamento. Bem podemos imaginar o que fariam um Gore Vidal ou um Norman Mailer (exemplos de uma intelectualidade norte-americana pretensiosa e arrogante, mas com certas qualidades literárias) com esse mesmo material!

A obra irradia, assim, uma aura de sinceridade. Há um esforço de humildade para ficar como uma figura secundária e sem importância e para deixar no seu devido lugar a grandeza de Camus.

A coerência desse Camus que vai se convertendo em um pensador em vias de montar um arcabouço religioso não é garantida somente pela simplicidade da narrativa. O entusiasmo de Camus é relativizado por conta do seu intelectualismo. Mumma se preocupa pelo fato de Camus ler a Bíblia como se fosse um romance ou uma peça teatral; em outro momento ele adverte explicitamente: “Você ainda a lê com os olhos de um estudioso ou de um crítico literário, não como faria um cristão. Você não é capaz de sondar a Bíblia em profundidade até que olhe além da erudição acadêmica”. Mumma descreve como Camus teria ficado confuso e atrapalhado, “como se lutasse para entender minhas palavras” e, ao final, ele teria respondido: “Vou continuar tentando”.

Digamos que seja no mínimo estranho ver o modo como Camus recebe uma reprimenda desse porte, mesmo que dita com o máximo de respeito e educação. Mesmo se considerarmos que, conforme o livro, ele deveria estar sôfrego de ansiedade por aquelas palavras. É nesse ponto que a humildade de Mumma atrapalha, pois é impensável que Camus levasse á sério quem não tivesse um alto grau de conhecimento e capacidade de raciocínio. Mumma tinha que ser muito bom!

No entanto, o que lemos se assemelha mais a lições de catecismo dirigido a adolescentes do que uma discussão entre dois intelectuais categorizados. É difícil acreditar que o autor de obras como “O Estrangeiro” ou “A Peste” (que, inclusive, são citadas) não estivesse familiarizado com alguns silogismos e figuras de pensamento tão simplistas como estão expostos no livro. A estranheza aumenta ainda mais quando Mumma conhece Sartre e Simone de Beauvoir. O modo como ele contesta a arrogância de Sartre e puxa a discussão para um ponto em que o filósofo se sente menos à vontade chega a ser quase cômico.

Apesar disso, as qualidades desse pequeno livro são muitas. Principalmente, para quem não conhece ainda as bases do pensamento de Camus e Sartre, serve como uma ótima introdução. As explicações são esclarecedoras, apesar de breves.

Podemos perceber, apesar de Camus ser tão associado ao Existencialismo, que há na verdade uma profunda diferença entre ambos. Camus e Sartre partem de um mesmo princípio (o da não-existência de Deus e a conseqüente responsabilização do Homem por seus atos), havendo aí uma forte identificação. Camus, no entanto, não consegue enxergar uma racionalidade no mundo, o que lhe causa uma angústia e desespero profundos, enquanto que Sartre tira daí toda uma moralidade humana e uma intensa militância política refletida na sua participação no partido comunista.

Mumma consegue captar todas essas nuanças e passá-las para nós. São discussões pelas quais ainda hoje nos debatemos e nas quais ninguém detém a última palavra. E, é lógico, nada impede que, no final das contas, Camus não tenha sido realmente levado pela força de suas convicções a um ponto que convergisse tão intimamente com as idéias de um metodista.

No final, Camus pede para ser batizado por Mumma e este se enreda em detalhes tecnicistas de sua Igreja. Camus já tinha sido batizado quando era criança e isso bastava para salvar sua alma. Por outro lado, mesmo se ele concordasse em realizar a cerimônia, essa seria pública, pois o batismo é uma cerimônia que ultrapassa o foro íntimo da pessoa; é o reconhecimento da comunidade e para a comunidade de que este ser passa a contar com o perdão de Deus para o pecado original.

A idéia de um cerimonial público teria assustado Camus e ele se retraiu. A questão ficou em suspenso. Mumma precisou voltar para os Estados Unidos, mas não ficou preocupado, pois voltaria para a França depois e eles poderiam continuar discutindo.

Nesse entretempo, em 1960, Camus morreu. Somente agora, mais de quarenta anos após a morte do filósofo, Howard Mumma sentiu que podia revelar estas conversações sem trair a memória do seu amigo francês. E acredito que o fez para purgar o que ele considera hoje como um erro. Ele diz que se tivesse consciência de que nunca mais se falariam, teria consentido no batizado.

Camus cristão?! É uma possibilidade estranha, nova e inusitada! Talvez não impossível, mas, convenhamos, bem improvável.

O livro de Howard Mumma não é um exercício fútil de saudosismo sobre velhos tempos. Ele lança questões para nós mesmos, contemporâneos do ataque ao World Trade Center, do filme “Cidade de Deus”, das guerras religiosas mundiais tão presentes. Esse é, sem dúvida, seu maior mérito.

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2 Comentários em “Camus e o Teólogo”

  1. Akio Says:

    Claudinei, faz tempo que não visito o seu blog.
    Não sabia desses detalhes do escritor Albert Camus, se não me engano, o autor de “A peste”. Será que é a mesma pessoa? Provavelmente que sim.
    Se não fosse o Howward Mumma e você, não saberia, eu pelo menos, (desculpe a minha ignorância) sobre Camus filósofo. Fica a dúvida: ateu ou cristão?
    Dizem que os ateus não são totalmente ateus, sempre há um quê, 0,001 na crença na existência de Deus. Camus seria um desses. Sarte, não sei, talvez, 0,0001. Eu sou cristão irresponsável com vontade de ser ateu. Como não sou filósofo, prefiro então seguir uma frase de uma comédia americana que não lembro o nome, onde o ator Morgan Freeman diz: “Deus é amigo imaginário dos adultos”.
    Bela resenha. Vou reler novamente, Muito interessante. Valeu.
    Abraço
    Akio

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  2. Tati Says:

    UAU!!!!!!!!!! Voltaram as resenhas!!!!!! Estou comemorando aqui… Beijao Cá! Vc nao me ligou semana passada, nem ontem. Semana que vai rolar a aula? Tati

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