CITY, Baricco

Em “City”, de Alessandro Baricco (editora Rocco), as histórias se cruzam o tempo todo, percorrem vastas extensões, viram em múltiplas direções ou terminam abruptamente em um beco sem saída. Exatamente como em uma cidade, qualquer uma.

As avenidas se entrecruzam o tempo todo e se você estiver disposto a fazer um passeio, presenciará todo tipo de acontecimento, verá toda espécie de pessoa. Sua atenção estará sempre se desviando, uma vitrine bonita de um lado, um carro incrementado que passa, um mendigo caído na rua, uma mulher de sapato de salto agulha que se quebra. Ela, aborrecida, joga o sapato no lixo imediatamente, pega um táxi ali mesmo, de pés nus e se dirige para a loja de calçados mais próxima. Sairá com um homem à noite, farão amor, assistirão televisão e ela irá embora e nunca mais a encontraremos na vida e nem neste livro.

É dessa forma que “City” se estrutura (ou se decompõe). O ritmo é frenético, alucinante ou inesperadamente quieto e parado, como quando o farol se fecha para os pedestres. Shatzy Shell é uma moça decidida, não tem nada a ver com a multinacional homônima, e possui idéias muito próprias sobre a vida e sobre as promoções de venda de hambúrguer. Ela é uma verdadeira avenida, via principal, digamos assim, que cruza com outra importante via, Gould, um menino gênio, que aos 13 anos de idade terminou a escola e está se dirigindo para a faculdade; sua mãe está internada em um hospício há anos e o pai liga toda sexta-feira às 19h15 para saber como ele está. Seus melhores amigos são Diesel, um gigante de dois metros e meio de altura que nunca viajou porque nunca encontrou um assento de ônibus que fosse compatível com seu tamanho, e Poomerang, um baixinho careca mudo que não-diz sempre e nunca não-fala sem razão. Obviamente são frutos da mente hipertrofiada de Gould. Ou não?

As ruas se ramificam, se dispersam. Mondini prepara o playboy burguês Larry Morgan que nunca passou fome na vida para ser o próximo campeão mundial de boxe; na barbearia, o barbeiro Wizwondk esfaqueia (ou seria tesoureia, já que ele usa uma tesoura e não uma faca?) o gordo que espancava o garoto que estava tendo um ataque epiléptico; no velho oeste, o xerife Wister persegue o índio Bear através do deserto e de cidadezinhas mexicanas abandonadas; na sala de aula, o professor Mondrian Kilroy explica a importância das curvas na obra “As Nymphéas” de Monet e sua busca desesperada de tentar pintar o nada por meio do não-ver. E, de alguma maneira estranha, mas absolutamente lógica, Eva Braun e Walt Disney também participam de tudo isso.

Várias outras ruas, ou melhor, histórias se encontram, se chocam, às vezes se bifurcam: o relojoeiro contratado para consertar os relógios em uma cidade onde o tempo parou; o garoto negro que nunca erra uma cesta no basquete; o velho professor sentado em uma arquibancada, com um eterno cigarro na boca, respondendo a perguntas sobre a atuação dos juízes de futebol, o qual, de uma forma sutil, é o verdadeiro ponto de equilíbrio para o jovem Gould.

Até o dia em que Shatzy Shell, que nunca é demais lembrar não ter nada a ver com o tal posto de gasolina, tem a grande idéia, a única possível, aliás, de como fazer para que o gigante Diesel possa finalmente viajar e conhecer o mundo e levar junto também ela, Poomerang, Gould e até quem sabe o professor Kilroy: comprar um trailer amarelo!

É preciso fôlego para acompanhar a caminhada deste jovem autor italiano que já tem vários livros publicados no Brasil. Ele mesmo se pergunta se é possível a alguém conseguir fazer a mesma viagem de outra pessoa. Ele viajou, passou três anos por “City” e vai ficar com saudade de Shatzy Shell e Gould.

Vale a pena percorrer estes caminhos. Os resultados podem ser assustadores, com momentos de profunda melancolia, solidão e desespero, cruel e belamente retratados por Baricco. Não há nenhuma placa indicando o sentido para a felicidade. No entanto, só é possível saber o que há no fim da rua quando chegarmos lá. “City” é daqueles livros que se lêem sofregamente. E quando chegamos à última página percebemos que uma verdadeira experiência sensorial e de vida foi realizada. Podemos não realizar a mesma viagem que o autor quis que fizéssemos, pois cada um faz a sua e a interpreta do seu próprio jeito. Mas, a loucura, o gozo, o espanto permanecem.

 

Prólogo

– Então, senhor Klauser, Mami Jane tem de morrer?

– Vão todos à merda.

– Isso é um sim ou um não?

– O que o senhor acha?

Em outubro de 1987, a CRB – há 22 anos editora das aventuras do fabuloso Ballon Mac – decidiu lançar uma enquete entre seus leitores para estabelecer se era o caso de “matar” Mami Jane. Ballon Mac era um super-herói cego que durante o dia era dentista e à noite lutava contra o Mal graças aos poderes muito peculiares de sua saliva. Mami Jane era sua mãe. Os leitores, em geral, tinham muito carinho por ela: colecionava velhos escalpos índios e à noite exibia-se, como baixista, num conjunto de blues totalmente composto por negros. Ela era branca. A idéia de fazê-la ter um troço fora do diretor comercial da CRB – um senhor muito tranqüilo que tinha uma única paixão: trenzinhos elétricos. Dizia que Ballon Mac estava num trilho morto, e precisava de novas motivações. A morte da mãe – atropelada por um trem quando estava fugindo da perseguição de um ferroviário paranóico – o transformaria numa mistura letal de raiva e dor, ou seja, no retrato cuspido e escarrado de seu leitor médio. A idéia era idiota. Mas o leitor médio de Ballon Mac também era.

Assim, em outubro de 1987, a CRB esvaziou uma sala do segundo andar e colocou lá dentro oito mocinhas com a tarefa de atender o telefone e coletar a opinião dos leitores. A pergunta era: Mami Jane tem de morrer?

Das oito mocinhas, quatro eram funcionárias da CRB, duas haviam sido mandadas pelos serviços sociais, uma era sobrinha do presidente. A última, uma moça de uns trinta anos que era de Pomona, estava ali com um contrato de estagiária que tinha ganho respondendo corretamente a um concurso radiofônico (“O que é que Ballon Mac mais odeia no mundo?” “Fazer a remoção do tártaro”). Sempre andava por aí com um gravadorzinho. De vez em quando o ligava, e dizia umas coisas para dentro dele.

Chamava-se Shatzy Shell.

Às 10:45h do décimo segundo dia de enquete – quando a morte de Mami Jane estava ganhando por 64 a trinta (os 6% restantes achavam que todos tinham de ir tomar no cu, e até tinham telefonado para dizer isso) – Shatzy Shell ouviu o telefone tocar pela vigésima primeira vez, escreveu no formulário que estava à sua frente o número 21, e atendeu. Seguiu-se a seguinte conversa:

– CRB, bom-dia.

– Bom-dia, Diesel já chegou?

– Quem?

– Ok, ainda não chegou…

– Aqui é a CRB, senhor.

– Sim, eu sei.

– Deve ser engano.

– Não, não, está tudo bem, agora ouça.

– Senhor.

– Pois não?

– Aqui é a CRB, é a enquete “Mami Jane tem de morrer?”.

– Obrigado, sei disso.

– Então por gentileza, qual o seu nome?

– Meu nome não interessa…

– Tem de me dar, é a praxe.

– Ok, ok… Gould… meu nome é Gould.

– Senhor Gould.

– É, senhor Gould, agora, se eu puder…

– Mami Jane tem de morrer?

– Como?

– O senhor deveria me dizer o que acha se Mami Jane tem de morrer ou não.

– O céus…

– O senhor sabe, não?, quem é Mami Jane?

– Claro, claro que sei, mas…

– Veja, o senhor teria de me dizer apenas se acha que…

– Quer me ouvir um instante?

– Claro.

– Olhe, faça-me um favor, dê uma olhada à sua volta.

– Eu?

– É.

– Aqui?

– É, aí, na sala, faça-me esse favor.

– Ok, estou olhando.

– Muito bem. Por acaso está vendo um moço de cabeça raspada segurando pela mão um cara muito grande, mas grande mesmo, uma espécie de gigante, com uns sapatos enormes, e um casaco verde?

– Não, acho que não.

-Tem certeza?

-Tenho certeza.

– Muito bem. Então ainda não chegaram.

– Não.

– Está bem, então quero que saiba de uma coisa.

– O quê?

– Aqueles dois não são maus.

– Não?

– Não. Quando chegarem vão começar a quebrar tudo, e com toda probabilidade vão pegar seu telefone e vão enrolá-lo em seu pescoço, ou coisas do tipo, mas não são garotos ruins, não mesmo, só que…

– Senhor Gould?

– Pois não?

– O senhor se incomodaria de me dizer quantos anos tem?

– Treze.

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2 Comentários em “CITY, Baricco”

  1. desconcertos Says:

    VAleu, Cidinha! É sempre um enorme prazer tê-la por aqui. Grande beijo!

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  2. Cidinha da Silva Says:

    Querido Claudinei, como vai? Você some por uns dias e quando aparece é com uma pérola dessas. Assim, a saudade dos seus textos vale a pena.

    um beijo,
    cidinha

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