No fundo de um sonho – A longa jornada de Chet Baker

A vida de Chet Baker é carregada de mitos, lendas, mentiras, contradições, preconceitos, terror, suspense, beleza e arte. James Gavin levou sete anos pesquisando, conversando e viajando pelo mundo inteiro para conseguir separar um pouco este emaranhado. Ele investigou do nascimento de Baker em Oklahoma, em 1929, ao atestado de óbito e os boletins policiais na Holanda, local de sua enigmática morte em 1988. O resultado é este “No Fundo de Um Sonho”, de James Gavin, um mergulho no inferno pessoal de um dos mais carismáticos músicos do século XX.
É preciso coragem e estômago para ler este livro. As descrições são vívidas e sem retoques. Trata-se da vida de um homem torturado e complexo, um doente, um viciado cuja droga favorita era a heroína, da qual consumia quantidades absurdas por dia; se fosse misturada com cocaína (formando o coquetel chamado speedballs), melhor ainda. O livro descreve as tortuosas e desesperadas buscas pela droga, os roubos praticados para conseguir dinheiro para o pagamento dos traficantes, as falsificações de receitas médicas, as crises de abstinência, as prisões, as overdoses.
No entanto, Baker demorou a realmente se viciar em drogas pesadas. Ele descamba, de verdade, quando, em sua primeira tournée pela Europa, seu grande amigo Dick Twardzik um promissor pianista que fazia parte de sua banda e prometia ser um futuro gênio da arte, morreu no primeiro mês de apresentações. Isso foi em 1956.
Em 1959, Baker estava no ponto de consumir uma droga chamada Palfium que, na época, pensava-se que não fosse tão viciante e que, na prática, servia como substituto da heroína. Era barata e legalizada. A questão era a quantidade. Para chegar perto da força da droga à qual estava acostumado, Baker esmagava centenas de pílulas de Palfium, esmagava-as, acrescentava água e injetava na veia. Era uma média de 250 pílulas por dose. Esmagava, diluía e se picava, várias vezes em seguida. Gavin calcula que, entre setembro e outubro deste ano, Baker tenha consumido por volta de dez mil dessas pílulas.
Há momentos de sangue e horror, como quando Baker, completamente chapado, não consegue achar a veia para se picar e vai furando o corpo. Quando o encontraram caído no chão, havia sangue até nas paredes.
Se isto está parecendo forte, saiba que estou suavizando a descrição. Gavin não mede esforços para descrever as reais e minuciosas sensações de dor e desespero.
Nem mesmo o autor esteve preparado quando começou a pesquisar. Ele conta que um dos seus primeiros entrevistados, Orrin Keepnews, antigo dono da Riverside Records, pára no meio da conversa e lhe pergunta se ele tinha alguma idéia de onde estava se metendo. Gavin responde: “Claro”. Mas não, ele estava bem longe de imaginar toda a profundidade da feiúra.
Tudo isso em contraste absoluto com a música, suave, doce, leve, instigante, um tanto enigmática. Distante, quase fria. Em outras palavras, cool. “Cool” era muito mais do que um simples estilo de tocar. Significava um jeito de se vestir, de se portar, de falar, de se posicionar perante o mundo. Mesmo que esse posicionamento fosse somente mais uma forma de se usar, ou não, um boné. Em 1953, então com 24 anos, Baker foi votado como o melhor trompetista do mundo, passando por cima dos gigantes Louis Armstrong, Miles Davis e Dizzy Gillespie. Nunca teve uma formação musical formal, era autodidata, nem sabia ler partitura, aprendia as musicas de ouvido e detestava ficar ensaiando. Era capaz de decorar uma musica ouvindo-a somente uma vez.
Mas, acima de tudo, havia a sua aparência. 
Ele era branco. Bonito. Tímido e reservado. Foi um autêntico galã do jazz. E isso foi soberbamente explorado por um jovem fotógrafo fanático de jazz, Willian Claxton, mais tarde um consagrado retratista de artistas famosos, principalmente músicos. De tal forma que, é mais que certo, boa parte dos discos de Baker na década de 50 foi comprada na sua maioria por causa das fotos na capa. Claxton soube capitalizar desde cedo esta beleza, extraiu toda uma sensualidade onde não faltava um certo ar de menino desprotegido e inocente. Foi um estouro. Seu rosto rivalizava com os dos atores de Hollywood, saiu na capa do Time. Ele foi a “Grande Esperança Branca do Jazz” (Gavin diz que isso penetrou tanto na mentalidade norte-americana que muitas pessoas não conseguiam ler seu livro, porque não se conformavam com aquele rosto devastado pelas doenças, drogas e brigas mostradas em sua velhice).
Sem dúvida nenhuma, nada disso o ajudava a ser popular entre os mais antigos, respeitados, e negros, jazzistas. Mais uma vez, eles sentiam que estavam sendo passados para trás somente por causa da cor da pele. A ponto de menosprezarem as suas qualidades que, em momentos menos conflituosos, eles mesmos reconheciam. Sua música seria fraca, sem imaginação, uma reles imitação malfeita de Miles Davis.
Para Gavin, isso tem muito de verdade. Sem desqualificar a arte de Baker e a força de sua música, o autor faz o diagnóstico de que, se não fosse pela sua brancura e beleza, ele não teria sido o estouro que foi. Sabe-se lá que caminhos teria tomado, mas sua história seria, inevitavelmente, diferente.
Essa duplicidade, essa aparência ingênua e doce que escondia uma existência tumultuada e complexada; o ataque à originalidade do seu trabalho, em contraste com a defesa da suavidade e beleza do seu som; o charme pessoal que atraía as pessoas e fazia com que as mulheres se apaixonassem constantemente, alternando com explosões de fúria e violência inauditas, Baker carregaria até sua morte.
James Gavin tenta o quanto pode manter um tom de distanciamento e neutralidade. Ele não quer fazer pré-julgamentos, não deseja montar uma acusação inquisitorial, deixa de lado questões moralistas. Isso levou uma articulista do New York Times, Michiko Kakutani, a dizer que Gavin detestava Baker e, por isso, fazia questão de levantar de forma exagerada o lado mais pesado e escatológico do músico.
Besteira. Gavin deixa que os fatos falem por si, simplesmente não se esconde deles. É lógico que a escolha da apresentação destes fatos implica em uma atitude consciente e selecionadora. O que importa é que ele não tenta impor seus pontos de vista.
Há a discussão, por exemplo, de uma possível homossexualidade reprimida de Baker. Gavin deixa que todos opinem e mostra fatos que substanciam e outros que negam esta idéia. Sentimos que, no fundo, ele acredita sim nisso, mas no final quem decide se concorda ou não é o leitor.
A própria morte de Baker é famosamente controversa. Ele caiu de um prédio em um bairro barra-pesada da Holanda. Impossível saber se foi suicídio, acidente, assassinato, conseqüência de uma alucinação causada pelas drogas. Gavin alinha todas as possibilidades.
Em “No fundo de um sonho – A longa noite de Chet Baker”, o que sobra, portanto, é o retrato completo e sem meias-palavras de um ser humano que era, ao mesmo tempo, um viciado terminal, um junkie aloprado e complexo, e um músico genial do século XX.

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One Comment em “No fundo de um sonho – A longa jornada de Chet Baker”

  1. Tati Says:

    Ler essa nota até me fez pegar um pirata que tenho dele aqui, acender um cigarrinho e ficar pensando…

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