Amigos pelas ruas de uma São Paulo em pé de frio.

Querida Li, como andas pela cidade de São Paulo? Claro, sabemos, percorremos essas ruas frias, de um gelo que ainda não esperávamos, quem sabe seria somente para o mês que vem, no entanto, nos pegou agora, desestrutura nossa rotina, torna ainda mais difícil a sempre extenuante tentativa de levantar a cabeça do travesseiro, com todos os tempos verbais possíveis ainda embaralhando o sono e o trânsito.

Li, como andas? Pois gostaria de dizer que as ruas, apesar dos agasalhos, estão fervendo, que cabeças estão fervendo, que amigos meus e nossos estão brigando para mostrar arte e talento, e sabemos bem que, ao lado dessa tal amizade estes caras e estas minas mandam muito e prezam demais continuar brincando com a bola para ‘desfrutar desse indescritível prazer que é chutá-la mais longe’.

Misto de admiração e espanto, penso neles. Em Fábio Brum, guitarrista do Bêbados Habilidosos, do Made in Brazil, faz arrepiar a alma com seus acordes, a ponto do mestre Chacal dizer que gostaria de fazer poesia como Fábio toca sua guitarra, e agora repassa sua experiência dando aulas. Não vou falar de sua excelência, basta tê-lo ouvido uma vez, ou aproveite-se um Tranqueiras Líricas, um Saco de Ratos Blues, um Melodrama Blues. Paulo Stocker é outro. Traços e linhas se aprendem e se aperfeiçoam.

Flavinho Vajman é outro. Conhecido até há pouco como Garoto-Enxaqueca, é preciso reconhecer o quanto ele é chato é com seu trabalho, com sua arte, com o modo como lida com o que sabe melhor fazer, sua música. Penso em sua apresentação com Fernanda D´Umbra no Bourbon Street, tocando com a boca machucada, para se perceber sua seriedade: tocando gaita. Penso em que o ponto na Frei Caneca, o famigerado Juke Joint, está para fechar (ao que tudo indica, realmente fecha agora) no dia 31de maio, fechando um ciclo em sua vida e na vida cultural dessa cidade. Flavinho com suas aulas de gaita pode até assustar, mas como o Mário Bortolotto já disse uma vez, ele só morde se você pedir. Penso no Paulo de Tharso, essa figura extraordinária, que exarceba em sua simples pessoa toda essa complexidade de um fazer / ser artista mandatário dessa tão antiga tradição de ser / fazer / ser humano. Carisma e talento se unem, músico e ator, cantor e poeta, escritor e professor de francês, com o qual fala um francês castiço e exuberante, baseando-se em peças de teatro ou obras literárias ou cinematográficas ou um falar simples e direto para necessidades imediatas, conforme desejar o aluno.

Querida Li, não sei bem o que dizer. Devíamos marcar uma ponta, tomar um café (isso é, você tomaria um café, eu ficaria com a minha cerveja, ou sempre podemos compartilhar um vinho), deixar passar o frio, o vapor de nossas bocas se confundiria com a fumaça dos carros congelados nessa São Paulo que ambos conhecemos, e eu diria da minha incapacidade de absorver o tamanho da bronca que poderíamos aguentar. e da impossibilidade de abarcar com a mente a quantidade de arte que nossos amigos conseguem produzir e com qual dimensão. Preciso te ouvir sobre suas aulas (imagino que ainda dê aula, em quatro ou cinco escolas diferentes por dia, como normalmente você fazia, além do doutorado na História) e retribuirei perguntando, com a minha costumeira ansiedade, sobre sua vida e acrescentarei, com um certo toque mínimo de malícia: Você conhece o trabalho do Edinho Kumasaka? Suas fotos causam um estranhamento instigante delicioso. Não são bonitas. São impactantes (veja a cara desse boneco!). Vai abrir exposição sua lá no B_Arco em Pinheiros (outra usina impressionante de talento). Precisamos assistir ao “Desatino” no Sesi da Avenida Paulista, é de quarta a domingo, é de graça e é com a Mariana Leme (o que por si valeria pagar qualquer ingresso, aliás), vai estrear nesta quinta, mesmo dia da abertura da exposição do Edinho no B_arco. Podemos nos jogar na exarcebação de um (anti-)Sade, no Anti-Justine, no Teatro X, da Rui Barbosa, suas sessões são às sextas-feiras, meia-noite (e, portanto, poderíamos, com justeza, passar pela Praça Roosevelt e nos dirigir para uma fogazza no Giannotti, como já combinamos e ainda não rolou); ou nos embebedar nas palavras de Dostoiévski, em “A Voz Subterrânea“, uma adaptação de “Memórias do Subsolo”, espetáculo que impressionou fortemente nosso caro Paulo de Tharso (veja aqui: http://paulodetharso.blog.uol.com.br/). Ou nos desbragarmos no nonsense hilário do Rolex – o antivelox, do Mário Bortolotto, no Teatro Ruth Scobar. Quero falar com mais vagar e falarei, em outro momento, do ‘Natimorto‘, no Parlapatões, e da “Festa da Abigaiu“, que retornou, dando mais uma chance aos incautos e desavisados (tipo um claudinei da vida) para não perderem infantilmente a oportunidade.

Podemos, é claro, querida Li, esquecermos todos esses amigos e sua arte e continuarmos com o café e a cerveja, passarmos pela casa da Tati Carlotti, e observarmos o frio caindo na paulistana Brigadeiro Luís Antônio, perceber o sentido do embaçamento acumulado na janela da sala e da fumaça do cigarro, ouvir um Chet Baker (que sempre cai bem), e podermos enfim conversar.

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6 Comentários em “Amigos pelas ruas de uma São Paulo em pé de frio.”

  1. claudinei vieira Says:

    maravilha. só combinarmos. bjs

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  2. Convidadíssimos … a janela, o Chet Baker e o cigarro estão aqui a espera de vocês!!! Beijo grande Cá e super Lidiane! Tati

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  3. Claudinei Vieira Says:

    hum, não sei, de quem mesmo? gaitista, é? – heheh. bjs

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  4. Que lindo texto, cara! Mas confesso que o que mais me encheu de orgulho foi ler o que vc escreveu sobre esse mocinho gaitista, como é mesmo o nome dele?
    Beijo!

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  5. Claudinei Vieira Says:

    VAleu, seu Roque
    Grande abraço.

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  6. Adorei a crônica. Me bateu agora saudade de Sampa.

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