A dança das editoras de quadrinhos no Brasil

 

Quem não acompanhou as notícias dos últimos meses do mercado editorial de quadrinhos no Brasil está perdendo uma história emocionante, com vários lances de suspense, reviravoltas, esperanças frustradas, esperanças renovadas, quedas e novidades. O tom das notícias em sua maioria é de desânimo e ceticismo, não se enxerga futuro promissor. Eu não sei. É até engraçado eu dizer isso, pois meu normal é de ceticismo tremendo (em geral e com tudo). No entanto, apesar das expectativas ainda serem vagas e nebulosas, penso que o que está se abrindo são possibilidades interessantes que, se aproveitadas e melhor pensadas e trabalhadas, talvez signifiquem uma real mundança em nossa relação com os quadrinhos neste país. No mínimo, a consciência da necessidade (vou repetir, com maiúscula e aspas: “Necessidade”) dessa mudança. Ou, quem sabe, estas possibilidades não existam e eu esteja somente entusiasmado (ansioso, afobado, quase desesperado com a espera) com algumas publicações prometidas para daqui a pouco.

Como disse, as notícias não são novas, mas só para situar a conversa: da Pixel saiu no final do ano passado um editor-chefe, Cassius Medauar, sob cuja gestão houve vários lançamentos importantes, a venda da editora para a Ediouro, e a conquista do prêmio HQMix, o ‘Nobel’ dos quadrinhos no Brasil, de Melhor Editora do ano passado. A saída foi confusa, e em sua carta de despedida publicada no blog da editora, anunciava discordâncias com uma suposta mudança de pensamento editorial. Apesar do desconforto, Medauar continuaria trabalhando com a Pixel, agora como uma espécie de assessor. A editora soltou um comunicado pela sua comunidade do orkut, dizendo que não haverá mudanças significativas (só teriam acontecido algumas “ações administrativas”), os lançamentos serão mantidos, e a linha de  qualidade garantida. Apesar da tentativa de acalmar os ânimos, a carta é vaga, não confirma datas nem especifica os lançamentos para os próximos dias, e como bem enfatiza Paulo Ramos, em seu Blog dos Quadrinhos não foi publicada ainda nem no “site da editora nem no blog da Pixel, canais oficiais de divulgação da empresa na internet“. E o “Fábulas Pixel”, uma de suas revistas mensais, não saiu em dezembro“…

A Conrad, que lançou ano passado dois portentos poderosos, ‘Chibata! – João Candido e a Revolta Que Abalou o Brasil’, de Hemeteiro e Olinto Gadelha, e o clássico finalmente editado no Brasil ‘Che – Os Últimos Dias de um Herói’, do escritor Oesterheldde e dos desenhistas Alberto e Enrique Breccia, vem diminuindo paulatinamente o ritmo de suas edições (várias estão atrasadas), está há meses negociando sua venda para alguma editora grande para mitigar um tanto de seus problemas financeiros. As conversas com a Ediouro não deram certo, agora estão tentando com a Companhia Editora Nacional. Por enquanto, ninguém diz como estão as negociações, o que só aumenta as incertezas. Vamos ver o que acontece.

E a Opera Graphica fechou oficialmente suas portas. Para marcar sua saída do mercado, lançou no finalzinho de 2008, seu último álbum de luxo, do Príncipe Valente. Para mim, sentimentos contraditórios com este acontecimento. Pois meus sentimentos sempre foram muito contraditórios em relação à própria editora. Pois Opera Graphica era famosa por lançar obras estonteamente belas e importantes, regalos deliciosos para o olhar, o tato, e a inteligência dos leitores. E famosa também pelos preços serem tão absurdos e astronômicos que impossibilitavam que esse conteúdo pudesse ser distribuído e apreciado por muito mais pessoas. Sempre penei e sofri com a minha admiração pelos seus livros, e a raiva por não poder compra-los. Imagino bem o quanto mais gente passava por esta situação. 

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Isso é um lado. Por outro, a Companhia das Letras assumiu um selo dedicado aos quadrinhos. É uma grande notícia, por certo! Assumem uma tendência que a editora já vinha tomando há algum tempo quando publicou, de forma esparsa, algumas obras fundamentais e belíssimas, como ‘Maus’ e ‘Persépolis’, mais recentemente a coleção completa do ‘Tintim’. O novo selo, Quadrinhos na Cia, apesar no nome bobo, publicará também autores nacionais, com alguns projetos muitíssimo interessantes (a ideia é de fomentar trabalhos com duplas nacionais, em parceria com a RT/Features; o primeiro já está definido: ‘Cachalote’, do escritor Daniel Galera e o desenhista Rafael Coutinho), e encaminhou uma lista de lançamentos importantes para este ano, como ‘Bottomless Belly Button’, de Dash Shaw;  ’Jimmy Corrigan: the smartest kid on Earth’, de Chris Ware, e este aqui, uma das obras mais espetaculares dos últimos tempos, um romance gráfico magnifico, poético e surpreendente, ‘Blankets’, de Craig Thompson (o qual falarei com prazer e mais detalhes, mais pra frente).

Absolute Watchmen

Absolute Watchmen

A Panini não diminuiu seu ritmo, está lançando o primordial ‘A Piada Mortal’, de Alan Moore, em edição de luxo, com capa dura e recolorização do desenhista Brian Bolland. ‘A piada mortal’ é a obra que deu um chacoalhão na história e na psique do Batman, tornando-o mais sombrio e insano e aproximando-o ao sombrio e insano Coringa, que teve aqui sua reformulação plena, uma origem coerente e triste, e uma personalidade profunda e complexa. Esse eu não perco de forma alguma. Pela Panini igualmente sairá a edição definitiva de ‘Watchmen’, em março para pegar o lançamento, claro, do filme (esperemos que essa data seja mantida, pois as datas do filme não estão cem por cento seguras, por conta de uma tremenda briga judicial entre produtora e distribuidora em Hollywood, que pode levar a um adiamento indefinível do seu lançamento). A edição norte-americana saiu em março passado, é de babar os olhos e roer-se de prazer, com capa dura, quase quatrocentas e setenta páginas, cinquenta das quais de extras, com exemplos do roteiro do Alan Moore, estudos de desenhos, as capas originais, está esgotadíssima nos Estados Unidos e a DC Comics planeja publicar (segundo o HQNews), um milhão de exemplares, para acompanhar também o lançamento do filme, já que não são bestas. Falta saber aqui se a Panini vai manter todos esses extras (seria sacanagem não fazer isso!) e o quanto vai custar (um ’simples detalhe’, eu sei…).

E com tudo isso, não custa lembrar a avalanche de lançamentos de fanzines de quadrinhos, de projetos alternativos, com belos resultados e qualidade tremenda. E sem falar da internet…

CARAMBA, a minha intenção inicial era escrever duas ou três linhas sobre o assunto, só para dar um toque aos desavisados e lembrar aos que já estão por dentro, para então fazer a verdadeira discussão a que me propus acima, sobre os rumos do mercado editorial no Brasil. Para não alongar ainda mais este post, façamos o seguinte: dou um breque aqui e amanhã retomo a conversa, em uma segunda parte. 

 

- Eu só não quero deixar de mandar um abraço ao camarada Wilson Vieira,tex_wilson_vieira_editorial_02 quadrinista tremendo (que se revelou uma superfigura, pessoa simpaticíssima e belo profissional, ao conhecê-lo quando participou de um dos meus eventos na Casa das Rosas). Wilson foi entrevistado junto com o desenhista Fred Macedo pela revista portuguesa dedicada a quadrinhos a BDJornal em suas edições 23 e 24 (onde publicou as histórias “Evolution” e “Kwi-Utena”), e foi citado em um texto do Sergio Bonelli, no editorial de ‘Tex Nuova Ristampa’!, referente aos 60 anos do BDJornal. Parabéns, Wilson e Fred, é sempre muito bom ver um trabalho de qualidade ser reconhecido e aplaudido, vocês merecem isso. (dá para ler o texto do editorial traduzido no Impulso HQ)

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